• PHILAIBÉRIA 2004: IMPRESSÕES DO COMISSÁRIO BRASILEIRO
    por Rubem Porto Jr.

    A exposição Philaibéria 2004 foi realizada entre os dias 22 e 30 de outubro de 2004 na aprazível cidade de Estremoz, em pleno Alentejo português. Essa exposição acontece a cada dois anos, ora na Espanha, ora em Portugal, de maneira intercalada. Para esta edição, a filatelia brasileira foi chamada a participar do evento em uma condição especial: estar junto dos portugueses no momento em que a Federação Portuguesa de Filatelia completa 50 Anos de existência, uma data certamente importante para a filatelia mundial.

    Estremoz é uma cidade bela, branca e barroca. Em suas cercanias encontramos aquilo que o alentejo tem de melhor: boa gente, boa comida e bom vinho. Vinhedos, olivais, sobreiros e mármore, movem a cidade para frente, devagar, mas sempre para frente....

    A exposição aconteceu no Pavilhão de Feiras da Cidade. Trata-se de uma construção recém inaugurada ainda "cheirando a nova" e que atendeu a demanda da exposição. No local, além do espaço para as coleções, haviam salas específicas para o trabalho da Comissão Organizadora além de um amplo auditório onde foram realizados a abertura, congresso e seminários.

    Os pontos altos das solenidades referentes a exposição foram a festa de abertura, o jantar de Jurados e Comissários e o jantar de Palmarés. A abertura solene, seguida de coquetel, aconteceu no próprio local da exposição. O Jantar de Jurados e Comissários aconteceu em um excelente restaurante dentro das muralhas do castelo que domina a cidade e o Jantar de Palmarés ocorreu na localidade de Vila Viçosa em um restaurante junto ao Palácio Ducal dos Braganças, local, além de belo, muito refinado e absolutamente apropriado para a ocasião.

    Registre-se a já tradicional fidalguia com que os portugueses recebem seus convidados. Tudo funcionou com perfeição durante a exposição, seja do ponto de vista organizacional, seja do ponto de vista das relações pessoais.

    Preparativos Iniciais

    O trabalho para enviar as participações brasileiras para este evento teve início ainda no princípio de 2004, a partir da confirmação, pela Federação Portuguesa de Filatelia, de meu nome para atuar como Comissário Brasileiro para a exposição.

    Tendo como suporte uma base de dados por mim montada ainda no ano passado, quando de minha primeira experiência como Comissário, na ocasião para a LUBRAPEX 2003, procurei divulgar ao máximo a exposição. Neste sentido, foram emitidas correspondências para todos os Clubes Filatélicos listados nesta base de dados (cerca de 40) e para todos os colecionadores nela presentes (cerca de 130). Foi usada ainda a "disseminação regional" onde, a partir da colaboração de amigos filatelistas, pude fazer a informação ser melhor distribuída em algumas regiões. Funcionou de modo muito satisfatório, principalmente em Pernambuco e no Ceará.

    Outra ferramenta importante foi a utilização de meios eletrônicos para a disseminação da informação. O Website do Clube Filatélico do Brasil (www.clubefilatelicodobrasil.com.br) foi utilizado como um ponto inicial da disseminação da informação referente a exposição. Também o Boletim Eletrônico do Brasil Filatélico foi ferramenta importante, apresentando a cada mês o andamento dos preparativos e fazendo circular a informação mais recente disponível. Informar e disseminar a informação foi essencial para que o resultado pretendido pudesse ser alcançado.

    A partir de um levantamento prévio, foi possível constatar que a exposição despertava grande interesse junto aos filatelistas brasileiros, mesmo levando-se em consideração outras questões de âmbito da política filatélica brasileira. Criou-se desde o início a perspectiva de enviarmos uma expressiva participação brasileira para o Alentejo português. Mais importante, criou-se a expectativa de que coleções e filatelistas que ainda não haviam participado de eventos filatélicos deste nível, pudessem fazê-lo neste momento. Assim aconteceu. Terminadas as inscrições provisórias, tivemos o retorno para 76 participações. Destas, foram confirmadas 71 participações, estabelecendo, assim, um número que cremos, seja o maior relativo a participação brasileira em eventos filatélicos fora do Brasil.

    A questão do transporte de todo este material para Portugal, crucial neste caso, foi equacionada junto à Diretoria Regional dos Correios do Rio de Janeiro. Toda a nossa carga acabou por seguir através de um malote com 15 volumes e cerca de 250 quilos de peso. Registro aqui meu agradecimento à colaboração prestada pela ECT, em especial a Sra. Vânia Bhering e ao Sr. Sérgio Azevedo, ambos do Setor de Filatelia ligado ao GEVAR - DR/RJ, que sempre se mostraram dispostos e disponíveis para resolver a questão do transporte do malote para Portugal, bem como no momento de desembaraçar a carga no seu retorno.

    Fato a ser lamentado, refere-se a ausência de duas das mais importantes participações brasileiras inscritas, que acabaram por não comparecer ao evento. As mesmas, por motivos diferentes, não foram entregues a este Comissário em tempo hábil. Entretanto, ressalte-se a confiança depositada pelos filatelistas neste Comissário e a percepção da importância da participação brasileira no evento. Estes foram, do meu ponto de vista, fatores que não podem passar sem registro neste momento.

    A Participação Brasileira

    Vamos utilizar alguns números, devidamente tabelados, para que o leitor compreenda de maneira rápida as características da participação brasileira no evento.

    O Quadro 1 mostra como foi a participação brasileira em termos de distribuição das participações por Classes de Competição. No Quadro 2 podemos observar a distribuição geográfica da participação brasileira e no Quadro 3 apresentamos os números relativos a primeiras participações de coleções em eventos fora do Brasil.

    Quadro1: A participação Brasileira por Classes de Competição

    Classe

    Inscritos

    %

    Temática

    20

    28.2

    Um Quadro

    13

    18.3

    Literatura

    11

    15.5

    Juvenil

    9

    12.6

    Tradicional

    8

    11.3

    História Postal

    5

    7.0

    Fiscal

    2

    2.8

    Website

    1

    1.4

    Inteiros Postais

    1

    1.4

    Aerofilatelia

    1

    1.4

    Total

    71

    100

    Alguns fatos saltam a vista ao observarmos o Quadro 1. O primeiro deles é que a Classe Temática ainda reina absoluta do ponto de vista das coleções expositivas no cenário filatélico brasileiro. Outro fato importante é realçarmos que a Classe Um Quadro (ainda experimental) parece ter caído no gosto dos colecionadores. Deve ser dito que este não é um fenômeno apenas brasileiro. Isto é algo que vem se registrando mundo afora.

    Quadro 2: A distribuição geográfica da participação Brasileira

    Estados

    Coleções

    %

    Rio de Janeiro

    21

    29.5

    São Paulo

    17

    23.9

    Pernambuco

    11

    15.5

    Ceará

    7

    9.9

    Minas Gerais

    7

    9.9

    Rio Grande do Sul

    3

    4.2

    Paraná

    2

    2.8

    Mato Grosso

    1

    1.4

    Distrito Federal

    1

    1.4

    Santa Catarina

    1

    1.4

    Total

    71

    100.0

    O Quadro 2 mostra que houve um amplo domínio no que diz respeito as participações no eixo Rio-São Paulo. Mais de 50% (53.4%) das participações pertencem a colecionadores destes dois estados.

    Entretanto, um registro importante deve ser feito em relação a presença dos filatelistas do nordeste nesta exposição. Ao somarmos a participação de Pernambuco e do Ceará temos um total de 18 participações, o que corresponde a mais de 25% do total das coleções inscritas. Não tenho dúvidas de que a realização recente de uma exposição regional, NORDEX em 2003, em muito contribuiu para que estes números fossem atingidos. Nossa interpretação é de que se há a oportunidade, o filatelista brasileiro se mostra presente, montando e habilitando sua coleção. Que aqui fique assinalada esta mensagem.

    Quadro 3: Primeira participação em eventos fora do Brasil

    Estados

    Coleções

    Total

    Primeira

    vez no exterior

    %

    Rio de Janeiro

    21

    7

    33.3

    São Paulo

    17

    11

    64.7

    Pernambuco

    11

    6

    54.5

    Ceará

    7

    4

    57.1

    Minas Gerais

    7

    4

    57.1

    Rio Grande do Sul

    3

    -

    -

    Paraná

    2

    2

    100

    Mato Grosso

    1

    1

    100

    Distrito Federal

    1

    1

    100

    Santa Catarina

    1

    1

    100

    Total

    71

    37

    52.1

    O Quadro 3 nos permite observar uma relação de causa e efeito. Mais da metade das participações inscritas na Philaibéria seguiram para o exterior pela primeira vez. Mais uma vez fica aqui caracterizada a necessidade da realização sistemática de exposições regionais que permitam a habilitação de novas coleções e de novos filatelistas. Não tenho dúvida em afirmar que a realização das NORDEX em Recife, SULBRAPEX em Porto Alegre e da EXFILRIO no Rio de Janeiro (todas exposições de caráter regional) em 2003, tem relação direta com a presença de coleções novas nesta exposição de caráter nacional realizada em Portugal.

    A Exposição

    A delegação oficial brasileira foi composta de quatro pessoas: este Comissário e três Jurados: Srs. Marcelo Studart (Presidente da FEBRAF), Gilberto H. William (Vice-Presidente do Clube Filatélico do Brasil) e Mário Xavier (Secretário Geral da FEBRAF). Todos nós chegamos a Lisboa no dia 21 de outubro, um dia antes da abertura da exposição. Na parte da tarde deste dia acompanhei a fase final de montagem (realizada por um grupo de jovens da região) das coleções brasileiras, checando cada uma delas, trabalho este que se estendeu pela manhã da sexta-feira dia 22 e na qual colaborou o Sr. Gilberto William.

    Neste mesmo dia, ao final da tarde, aconteceu o ato solene de abertura da exposição. Foi realizado no próprio local da exposição, o Parque de Feiras e Exposições de Estremoz, e contou com a participação especial do coral "Orfeão de Estremoz Tomaz Alcaide". Após o ato formal de abertura, com mesa composta por autoridades das Federações de Filatelia dos países participantes, além de autoridades do Correio português e da Administração pública local, todos os presentes foram convidados a participar de um excelente coquetel.

    O Júri da exposição foi instalado ainda no dia 22. Como Presidente atuou o Sr. Eduardo Souza e como Secretário o Sr. J. Miranda da Mota. O Corpo completo de Jurados foi composto pelos Srs. Castanheira da Silveira, Eduardo Sousa, João Soeiro, José Corrêa, J. Miranda da Mota, Lage Cardoso, Pedro Santos (portugueses) German Baschwitz, Miguel Angel Garcia e Sitjá Prats (espanhóis) além dos três brasileiros já citados.

    O trabalho do Júri se estendeu até o dia 26 (Terça-feira). Na quarta-feira, dia 27, as premiações já estavam fixadas nos quadros expositivos. O Jantar de Jurados e Comissários aconteceu na noite do dia 26 no restaurante São Rosas instalado dentro das muralhas da Cidade de Estremoz.

    A Philaibéria contou com um expressivo número de inscritos. Ao todo foram 195 participações aceitas, sendo 61 de Portugal, 63 da Espanha e 71 do Brasil. O índice de faltas foi baixo: apenas 5 participações não compareceram. A distribuição das participações pelas Classes de Competição pode ser observada no Quadro 4.

    Quadro 4: A distribuição pelas Classes de Competição

    Classe

    Portugal

    Espanha

    Brasil

    Total

    %

    Temática

    8

    12

    20

    40

    20,5

    Um Quadro *

    13

    4

    13

    30

    15,4

    Tradicional

    7

    14

    8

    29

    14,9

    Juventude

    4

    9

    9

    22

    11,3

    História Postal

    3

    12

    5

    20

    10.3

    Literatura

    8

    1

    11

    20

    10,3

    Maximafilia

    9

    1

    0

    10

    5,1

    Inteiros Postais

    6

    1

    1

    8

    4,1

    Aerofilatelia

    0

    3

    1

    4

    2,0

    Websites *

    1

    3

    1

    5

    2,6

    Classe Aberta *

    1

    3

    0

    4

    2,0

    Filatelia Fiscal

    1

    0

    2

    3

    1,5

    Total

    61

    63

    71

    195

    100

    * Classes Experimentais

    Podemos observar que as Classes Experimentais corresponderam a 20% dos total das participações inscritas, número este muito significativo. Este fato cria a necessidade de que os regulamentos, simples e claros, já disponíveis (ainda que em caráter experimental) sejam de conhecimento dos Jurados, para que estes estejam aptos a julgá-las. Isso significa dizer que os jurados devem conhecer estes regulamentos (mesmo que os provisórios) bem como suas "guidelines", para que não aconteçam avaliações estritamente pessoais, em geral contra as coleções. O necessário conhecimento das regras por todos, colecionadores e jurados, é essencial para que o sucesso inicial dessas Classes seja sustentado. No que diz respeito ao julgamento desta Classe, entendo que os Jurados devam atuar necessariamente desprovidos de preconceitos e restringindo sua avaliação aos itens regulamentares. A avaliação tem de estar necessariamente subordinada aos devidos enquadramentos das participações no que se refere ao regulamento vigente e não àquilo que os jurados acham da Classe. Infelizmente, nem sempre foi isso que aconteceu durante o julgamento desta Classe durante a realização da Philaibéria.

    No mais, o domínio das classes que sempre se mostram mais presentes: Tradicional, H. Postal e Temática que com um total de 89 participações perfizeram quase que 50% do total das participações. Após três dias de trabalho, o corpo do Júri da exposição Philaibéria concluiu seu trabalho. A coleção de Luís Virgílio Brito P. Frazão "A 1ª Emissão Inteiros Postais do Ultramar Português – Emissões D. Luís I" com 93 pontos, Medalha de Ouro Grande e Prêmio Philaibéria, foi a grande vencedora recebendo o Grande Prêmio da exposição. Trata-se de uma coleção que concorreu na Classe de Inteiros Postais.

    Demais premiações por Classe de Competição: João Maria da Silva Violante, "Portugal Clássico – 1ª Emissões", 92 pontos, Ouro Grande e Prêmio Espanha. Elder Manuel Pinto Correia, "Angola - 1ª Emissões" - 92 pontos, Ouro Grande e Prêmio Tradicional. Daniel Ruiz Anguiano, "Correo Britânico al Extranjero hasta la U.P.U.", 90 pontos, Ouro Grande e Prêmio História Postal. José Manuel Grandela Durán, "De la Investigación de la Estratosfera a la Conquista del Espacio", 88 pontos, Ouro e Prêmio Aerofilatelia. Hernâni A.Carmelo de Matos, "Estudo dos Inteiros Postais de D.Carlos I", 88 pontos, Ouro e Prêmio Inteiros Postais. João Moura, "Lisboa através dos Séculos", 88 pontos, Ouro e Prêmio Temática. John Dahl, "Revenues of the Republic of Portugal 1910-1930", 88 pontos, Ouro. Prêmio Fiscais. Pedro Miguel Vaz Pereira, "Inteiros Postais da Monarquia", 89 pontos, Vermeil Grande e Prêmio Juventude

    Durante a exposição aconteceram ainda o Congresso Luso – Espanhol de Filatelia além de seminários de Filatelia Tradicional, de História Postal e de Inteiros Postais

    Comentários sobre o Palmarés Brasileiro

    Como Comissário entendo que a participação brasileira em termos de resultado, deve ser entendida apenas como satisfatória. Essa avaliação vem do fato de que não observei em vários casos de participações brasileiras, o desnível apontado pelo resultado da pontuação e da medalha recebida por conseqüência. Das 71 participações brasileiras foram julgadas apenas 63, já que 2 não se apresentaram (uma na Classe Aerofilatelia e outra na Tradicional) e seis outras passaram para Classe Especial já que as instituições ou pessoas a elas relacionadas estavam participando do corpo de jurados (1 na Classe História Postal, 4 na Literatura e 1 na website). O Palmarés geral da exposição pode ser visto no Quadro 5.

    Quadro 5: Palmarés Geral da Exposição

    Medalha

    Portugal

    Espanha

    Brasil

    Total

    % Brasil

    Ouro Grande

    4

    5

    1

    10

    10,0

    Ouro

    14

    12

    8

    34

    23,5

    Vermeil Grande

    8

    9

    5

    22

    22,7

    Vermeil

    6

    10

    10

    26

    38,5

    Prata Grande

    11

    13

    4

    28

    14,3

    Prata

    13

    10

    14

    37

    37,8

    Bronze Prateado

    1

    2

    11

    14

    78,6

    Bronze

    2

    0

    10

    12

    83,3

    Total

    59

    61

    63

    183

    Este quadro mostra, claramente, que as coleções brasileiras foram entendidas como estando em nível abaixo das demais participações. É expressivo, e preocupante, que tenhamos recebido 83% das Medalhas de Bronze e 79% das Medalhas de Bronze Prateado distribuídas no evento. Evidentemente que alguma distorção aparece neste quadro em função da premiação diferenciada da Classe Um Quadro (apenas medalhas de Ouro, Prata e Bronze), entretanto, mesmo que expurguemos estes números, ainda teríamos percentuais bastante altos na base da tabela. Em contrapartida, apenas uma Medalha de Ouro Grande para as participações brasileiras, muito pouco pelo nível das participações presentes. Mesmo não sendo Jurado de nenhuma Classe Filatélica, tenho convicção formada de que haviam pelo menos mais três participações (fora as duas ausentes) que poderiam ter alcançado pelo menos 90 pontos se houvessem sido melhor explicadas e defendidas pelos jurados presentes.

    Isso nos leva a questão dos julgamentos das participações. É notório que temos tido problemas sistemáticos nesta questão. Sem desconsiderar o fato de que por vezes o expositor ignora certas regras básicas dentro de sua Classe, o que faz com que seja justamente penalizado, na maior parte das vezes o que sentimos é que os jurados brasileiros passam ao largo dos esforços feitos pelos expositores na tentativa de melhorar suas coleções. Neste tipo de exposição, com menos participações, de âmbito nacional, sem as tensões inerentes às grandes exposições, nós expositores, esperaríamos que os jurados brasileiros tivessem maior atenção e cuidado em suas observações. Que gastassem mais tempo preparando avaliações específicas de cada uma das coleções julgadas. No caso específico desta exposição havia tempo de sobra para que este trabalho fosse feito haja visto que o trabalho do júri foi encerrado oficialmente no quarto dia dos oito programados para a exposição. Havia, portanto, tempo para que o trabalho fosse realizado com calma. É necessário que os jurados compreendam que estão ali exercendo sim a função de julgar, mas também para colaborar no aprimoramento das coleções e não, e tão somente, para olhar para elas e estabelecer uma premiação que por vezes não corresponde a àquela que a participação faz jus. Espera-se do corpo de jurados, conhecimento para o julgamento e espera-se que este conhecimento seja dividido com os colecionadores.

    É preciso compreender que a filatelia ultrapassou (há muito tempo) sua fase romântica. Hoje ela está totalmente "profissionalizada" no sentido da atualidade dos regulamentos dos custos envolvidos na realização de uma exposição e dos investimentos feitos pelos colecionadores. Neste processo é essencial que os jurados também se mantenham atualizados e julguem inseridos neste contexto. Não é mais possível neste momento que os julgamentos sejam feitos e lavrados por gostos pessoais, por padrões estabelecidos no passado e já não mais aceitos no presente ou por "achismos". É preciso que o julgamento esteja embasado naquilo que é determinado pelo regulamento. Única e exclusivamente. Mais do que isso, reafirmo a necessidade do Jurado estar inserido em um processo coletivo que vise a melhoria das coleções que julga. Cabe a ele detectar e discutir os parâmetros que permitam a coleção evoluir, assinalando a necessidade de novas e específicas peças, de um melhor tratamento, de aumento no conhecimento filatélico e demais fatores que julguem impedir o avanço da coleção. Não basta assinalar a pontuação e achar que o trabalho está feito. Não, não está! É preciso mais, e o colecionador brasileiro merece a atenção e o respeito da parte de quem julga.

    Entendo que quando um colecionador, já com certa experiência no meio expositivo e com algum conhecimento filatélico e nível crítico, apresenta, por exemplo, sua coleção totalmente remontada, expondo agora oito quadros e não mais cinco, e vem obter exatamente a mesma pontuação que obteve em certames anteriores, algo está errado. Creio que até seria mais fácil de explicar se tivesse perdido pontos (por ter acrescentado material sem relevância nos 3 quadros novos apresentados), mas manter exatamente a mesma pontuação, da margem a se pensar no que se passa no momento em que o jurado se encontra na frente de seu material. No mínimo os itens regulamentares da planilha não estão sendo julgados com a responsabilidade que deveriam. Não se admite mais "as contas de chegada", onde a planilha de pontos serve, não para julgar e totalizar, mas para ajustar um julgamento realizado em bases aleatórias do tipo "... essa aí eu conheço, vale Prata..." e daí ajusta-se a medalha de prata na planilha.

    Para piorar, no caso específico desta exposição, uma das poucas falhas que puderam ser vistas no contexto geral da exposição foi a ausência dos jurados no dia e período marcado para as explicações aos colecionadores. Infelizmente, da parte brasileira, apenas um jurado, o Sr. Gilberto William esteve presente no dia e hora marcada. Isso impediu que muitas dúvidas por mim levantadas a respeito de pontuações e premiações conseguidas por coleções brasileiras, fossem esclarecidas. E falo isso não especificamente no que diz respeito as minhas coleções, mas em relação a de outros brasileiros que sei, se sentiram prejudicados no julgamento, e que mereciam uma explicação condizente da parte de quem julgou. Ao procurar os jurados presentes (portugueses na quase totalidade já que também os jurados espanhóis não se fizeram presentes), me foi explicado que somente os jurados brasileiros, no caso ausentes, poderiam me dar as explicações técnicas mais específicas referentes a itens como tratamento, raridade, conhecimento, etc. Uma situação crítica e inaceitável. Neste caso podemos dizer que o trabalho do Júri foi falho.

    Outro fator que desperta curiosidade é o fato de que dos cerca de 25 prêmios especiais disponíveis, as participações brasileiras tenham recebido apenas dois! Convenhamos que é algo absolutamente desestimulante. Com o pouco de experiência que já adquiri participando de exposições sei que um pouco de empenho por parte dos jurados representantes da filatelia de cada nação é determinante para que as premiações atinjam um certo patamar. É lógico que não se defende o indefensável, mas aquilo que é bom, merece uma defesa severa e marcante. Faz parte do trabalho do jurado interferir na tentativa de se obter o melhor possível em termos de premiação. Há espaço para que isso aconteça. É assim que funciona em todo lugar, parece que menos entre os brasileiros.

    A impressão que fica é que, por motivos que desconheço, o jurado brasileiro se encolhe e julga pequeno e com isso acaba por prejudicar a filatelia brasileira e os colecionadores em geral. Não tem cabimento, não é aceitável, não é justo, que coleções que já obtiveram uma premiação "x" venham a ser rebaixadas (em pontos e eventualmente até em medalhas). Isso não acontece com as coleções dos outros países, pelo menos da forma como vem acontecendo com as coleções brasileiras de maneira quase que sistemática.

    Conclusão

    Essa nova experiência como Comissário brasileiro para uma exposição realizada fora de nosso território, serviu para que eu consolidasse algumas impressões que comecei a esboçar em minha mente ainda no ano passado quando da realização da Lubrapex em Lisboa quando exerci a mesma função.

    Em primeiro lugar quero afirmar que é altamente estimulante para mim o retorno dado pelos colecionadores, de uma forma geral, ao chamado para participar das exposições as quais me designaram para a função de Comissário. O colecionador brasileiro se prepara e se esforça para mandar a melhor coleção possível, disso tenho certeza. Quando a eles fazemos o convite e embutimos a confiança de que tudo que estiver ao nosso alcance será feito para que a sua participação na exposição seja a melhor e mais tranqüila possível, ele responde de imediato e com entusiasmo. Foi isso que em ambas as oportunidades tentei fazer e creio que consegui um bom resultado.

    Outro fato importante é realçar que, apesar de todas as questões referentes a política filatélica, que vem interferindo de maneira direta na participação de um bom número de colecionadores nos eventos expositivos recém realizados, há um grande manancial para o aparecimento de novas coleções e de novos colecionadores, haja visto o fato de termos conseguido mandar para Portugal uma número substancial de participações recentemente habilitadas. Para mim isto significa que a filatelia brasileira insiste em sobreviver.

    Creio ainda tratar-se de tarefa fundamental, que o órgão diretivo da filatelia brasileira atente para o fato de que existe uma necessidade extrema de manter atualizado um cadastro geral dos colecionadores brasileiros e de um palmarés atual de cada uma das coleções apresentadas em qualquer exposição competitiva e que este material esteja disponível para uso por todos, principalmente daqueles designados para a função de Comissário. A boa e permanente comunicação é fator determinante para o sucesso de empreendimentos deste tipo.

    É fundamental também que o corpo de jurados brasileiros se prepare, estude, examine e entenda os regulamentos e as "guidelines" de cada uma das Classes de Competição para que possam, além de bem julgar, orientar o colecionador na melhoria de sua coleção. Tenho convicção formada de que esta é uma tarefa inerente ao fato de "ser" jurado e de aceitar participar de julgamentos de coleções filatélicas. É necessário que se estabeleçam parâmetros que não permitam que coleções que já atingiram um certo patamar em termos de pontuação, sejam posteriormente rebaixadas, sem que haja para isso explicações aceitáveis. Vejo ainda como necessária, uma reformulação ampla no quadro de jurados nacionais e dos poucos jurados internacionais que temos. Novas cabeças, novas formas de pensar, mistura da experiência com os novos conhecimentos: essa é a fórmula para dar certo.

    Entendo que se trabalharmos de maneira organizada, olhando para a frente, sem vaidades e preconceitos, poderemos fazer uma filatelia melhor. Poderemos aumentar a participação da filatelia brasileira em eventos de maior importância e poderemos deles sair com resultados melhores.

    Tentei, de forma honesta e leal, atender as necessidades que a função de Comissário exige e merece. Nestes dois grandes eventos em que exerci a função, tentei dignificar e apontar a necessidade e importância que o exercício da função de Comissário representa. Espero ter conseguido atingir este objetivo, senão de maneira completa, pelo menos da melhor maneira que pude. Tratou-se, em ambos os momentos, de uma experiência importante e marcante na minha vida e experiência filatélica.

    Por fim, reafirmo que em ambas as oportunidades, o fator de maior relevância, para mim pessoalmente, foi poder contatar, de maneira mais intensa e permanente, com boa parte do "mundo filatélico expositivo" brasileiro e perceber que ele está quase pronto para grandes saltos de qualidade. Vontade não falta ao colecionador. Faltam as condições para que isso aconteça em função das questões que estão listadas acima, segundo meu entendimento.






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