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Entrevista com o Sr. Pedro Vaz Pereira, Presidente da FEPA e da FPF
por Rubem Porto Jr. (25/11/2005)
A seguir apresentaremos o pensamento do Sr. Pedro Vaz Pereira, Presidente da FEPA (Federação Européia de Filatelia) e da FPF (Federação Portuguesa de Filatelia). O intuito desta entrevista é lançar a luz o pensamento deste importante filatelista e dirigente filatélico. Nas próximas páginas, ele será instado a discorrer sobre vários pontos de grande relevância para a filatelia. Pedro Vaz Pereira é um filatelista completo. Colecionador, Expositor, Jornalista, Escritor e Dirigente Filatélico, é hoje a nível mundial um dos nomes de maior destaque no cenário Filatélico. Particularmente, este é um momento importante em sua vida filatélica, não só pela sua recente recondução à direção de uma, se não a mais, importante Federação Filatélica Continental, mas também por recém ter apresentado ao público uma importante obra filatélica referente aos carimbos nominativos portugueses, um livro de excelente qualidade e apresentação. Pedro Vaz Pereira é sócio honorário de nosso Clube e gentilmente respondeu as perguntas deste editor. Fica aqui o registro de nosso agradecimento.
CFB – O que o levou a se candidatar a Presidência da FEPA em 2001 e se recandidatar agora em 2005? Quais são as suas motivações para o exercíco desta tarefa?
PVP- Em Dezembro de 2000 tive um convite do então Presidente da FIP, Knud Mohr, para eu me candidatar a Presidente da FEPA já que entendia ele que a FEPA necessitava de alguém como eu. Aceitei esse convite, porque sou basicamente um reformador e organizador. As Federações Continentais não tinham qualquer estatuto junto da FIP, que era a “senhora” toda poderosa da filatelia mundial. As Federações Continentais existiam no papel, reuniam uma vez por ano e pouco ou nada mais. Entendi que era altura da FEPA ter o seu papel na filatelia mundial, reformando o que havia a reformar e com a sua acção trazer para este objectivo as outras Federações Continentais. Temos Federações Continentais, mas se elas não servem para nada, nem sequer estão devidamente consideradas pela FIP, então para quê ter Federações Continentais? Para quê gastar tempo e dinheiro com algo que para nada servia ou serve?
CFB – Qual a avaliação que o Sr. faz de seus primeiros 4 anos (2001-2005) como Presidente da FEPA? Qual a sua projeção para os quatro anos próximos?
PVP- Os meus primeiros 4 anos foram fantásticos. Introduzi um novo estilo na filatelia européia e mundial e, sem medos, disse o que estava correto e o que estava mal. Só criticando pelo ponto de vista positivo podemos atingir os nossos objetivos, mas também se torna necessário executar para darmos o exemplo e isso foi amplamente feito. Nestes 4 anos foram elaborados os novos estatutos da FEPA e os novos regulamentos de competição da Europa, foi lançada a FEPA NEWS, uma excelente revista européia, para a Europa e para o Mundo filatélico, foi terminada a revisão dos estatutos da FIP e do GREX, que serão propostos à FIP e outras Federações Continentais, foi elaborado o Regulamento da Open Class aprovado no Congresso da FIP de Singapura, foi elaborada a nossa proposta de regulamento de “1 Quadro”, publicada na FEPA NEWS 5, foram feitos vários contratos publicitários que nos trouxeram excelentes mais valias, foi elaborado um importante documento “FIP FOR WHAT, CONTINENTAL FEDERATIONS FOR WHAT?”, criamos e regulamentamos os prêmios FEPA para distinguirmos os melhores na Europa, visitei muitos países pequenos para me aperceber da sua trajetória filatélica e dessa forma percebermos o que na realidade precisa a Europa e apoiei totalmente as Federações Nacionais, onde mais de 11.000 E-mails foram recebidos e enviados por mim, para além de muitas circulares e muitas outras ações que foram realizadas e que seria fastidioso estar a enumerá-las todas. Nos próximos 4 anos irei discutir a revisão dos estatutos da FIP e GREX e continuar na mesma linha: trabalho, muito trabalho, muita ação para reformar o que tiver que ser reformado. Porém uma preocupação me domina neste momento e que diz respeito à Juventude. Torna-se necessário encontrar uma linha européia, um projeto o mais comum possível para os países europeus. Para isso já tenho o meu Vice-Presidente a trabalhar neste projeto. Teremos que aprovar definitivamente os regulamentos da “OPEN CLASS“ e “1 QUADRO” e teremos que encontrar um regulamento definitivo de competição para os WEBSITES, acabando-se com a confusão que agora reina. A FEPA NEWS continuará a ser produzida totalmente por mim e será um elo importante de ligação das Federações européias. Enfim, ação e implementação das reformas a fazer e apoio às Federações europeias serão os meus principais cuidados.
CFB- Como foi o processo que levou o Sr. a se reeleger para a Presidência da FEPA em maio último?
PVP- Foi muito engraçado e ao mesmo tempo enriquecedor. Quando se trabalha, quando se reforma e quando se tomam decisões, não se pode agradar a toda a gente e muito menos a quem pensava que detinha o poder europeu, ilusão que normalmente todos têm a respeito do poder, esquecendo-se como o poder é efêmero. Porém existem sempre alguns que querem continuar a ter protagonismo e que pensam que o seu passado lhes permite intrometer no trabalho dos outros, que apenas e só querem fazer o melhor que sabem. Tive uma surpresa ao constatar que três filatelistas europeus da velha guarda, que já não representavam qualquer federação nacional, tentaram imiscuir-se, ao bom velho estilo, nesta eleição da FEPA. Telefonaram-me a tentar desmoralizar-me e acima de tudo a tentar que eu fizesse conflitos mormente com a FIP, tentando colocar-me em situações delicadas e prejudiciais para a minha eleição. Criaram-me bastantes obstáculos com jogos que eles julgavam diplomáticos. Como não podiam dizer mal do meu trabalho, então inventaram uma tese que se baseava numa hipotética falta de diplomacia da minha parte no que diz respeito ao meu editorial da FEPA NEWS 6 onde eu assinalava a falta de democracia que tinha existido na eleição do Sr. Peter McCann para Vice-Presidente da FIP pela FIAF. Chegaram ao ponto de, inclusive, arranjar um candidato alternativo, violando as mais elementares regras da soberania das Federações Nacionais, já que esse candidato não era apoiado pela sua própria Federação Nacional e ainda deslocaram-se a Brno para fazerem política contra mim. Repare-se que falo de 3 pessoas! Diplomaticamente disse-lhes a tudo que sim e eles certamente pensaram que o “desgraçado” do português estava arrumado, mas as decisões eram das Federações Nacionais não daquelas três pessoas, que já nada nem ninguém representam e as Federações Nacionais Européias deram a melhor resposta que podia ser dada, elegendo-me por unanimidade e reconhecendo assim o meu esforço e trabalho em prol da filatelia da Europa.
CFB- Como o Sr. vê a filatelia mundial hoje do ponto de vista de sua disseminação e de conquista de novos colecionadores? A FEPA, ou suas Federações associadas, tem algum tipo de programa voltado para este tema? Faz parte da preocupação da filatelia européia este assunto?
PVP- A Filatelia Mundial está bem e recomenda-se. Temos apenas um deficit de exposições, fruto de determinadas crises financeiras que afetam os correios. Assiste-se a um interesse muito grande na filatelia, onde é necessário fazer cortes radicais nas inscrições das participações. Contudo, inovar é absolutamente necessário para atrair novos colecionadores e aí estão os campeonatos mundiais de selos, a Open Class, “1 Quadro”, que são mais valias fantásticas para a filatelia. As Federações Européias, quase todas, têm planos filatélicos anuais onde a filatelia é divulgada e promovida. Exposições, seminários, programas com a juventude e literatura, enfim, leia-se a FEPA NEWS e aí poder-se-á constatar o quanto a Europa trabalha para a Filatelia. O papel da FEPA terá que ser cada vez mais de coordenadora de todas estas atividades mas, para isso, temos que rever os Estatutos da FIP e o GREX e aceitar ter aquilo que já propus no meu primeiro mandato e que designava por um Projeto Europeu. Só que tal leva tempo a implementar, já que a Europa é um Continente complicado, com muitas línguas, muitas diferentes entidades e mentalidades nacionais, muitas situações econômicas diferentes e tudo isto torna o nosso trabalho muitas vezes delicado e mais lento do que aquilo que gostaríamos.
CFB- E do ponto de vista comercial, qual a sua visão da filatelia atualmente?
PVP- Neste aspecto a confusão é total. Temos um bom comércio oficial e um mau comércio paralelo. Temos comerciantes a mais naquilo que eu designo de “pasta na mão”, que especulam, que interferem no comércio normal, fazendo muitas vezes concorrência desleal e criando confrontos com os comerciantes regulares. Não pagam impostos, não têm despesas com empresas organizadas, mas compram onde podem, compram no e-bay, compram aqui e ali, não compram peças para as suas colecções, porque já não são filatelistas, mas compram para negócio, porque de negociantes se tratam. As associações de comerciantes têm que tomar uma clara posição sobre este mercado paralelo. Porém, existe ainda uma situação mais complicada: a venda de emissões ilegais via Internet. Autênticos candongueiros da filatelia mundial mandam fabricar selos à revelia das administrações postais e depois vendem-nos aos incautos e leigos, ganhando assim milhões e defraudando a filatelia e os futuros filatelistas que compram tais fraudes postais. Uma autêntica vergonha. Como em tudo na vida, descobriu-se que a filatelia é um negócio de largo lucro, logo surgiram os aldrabões a tirar proveito dessa actividade. O filatelista apenas tem que se acautelar e aconselhar, para não “comprar gato por lebre”.
CFB- No âmbito da instituição máxima da filatelia mundial, a FIP (Federação Internacional de Filatelia), qual a sua avaliação sobre suas ações nos últimos anos? Onde tivemos avanços e onde tivemos retrocesso nestes últimos anos?
PVP- A FIP era uma estrutura um pouco maximizante. “Se penso, logo existo”, mas pensar não chega e eu pergunto por exemplo : seriam necessários 4 anos ( 2002 a 2006) para termos regulamentos definitivos para as Classes “1 Quadro” e “Open Class”? Como pode ser feito um regulamento de disciplina sem consultar as Federações Continentais ou as Nacionais? Não tenho dúvidas que a atual Direcção da FIP faz tudo na melhor das intenções, só que, durante muitíssimo tempo, esteve sozinha no mundo filatélico e esqueceu-se muitas vezes que as Continentais existem e que uma vida democrática deve existir ao nível da FIP, Federações Continentais e Federações Nacionais, onde a responsabilidade pelas decisões deve ser colectiva, tornando-se assim tudo muito mais fácil entre os três Continentes. Nos anos 90 a FIP teve uma ação extremamente positiva. D.N. Jatia foi um grande Senhor da filatelia Mundial. Foram feitos regulamentos importantíssimos, foi moralizada a nomeação de jurados e a FIP teve na realidade uma ação de grande mérito, onde comandava com razão a filatelia mundial. Knud Mohr, no final da década de 90, tentou inovar e inovou, com as “NATIONS CUP”, os campeonatos mundiais de filatelia e com a aprovação dos novos Estatutos da FIP em 2000. Depois de Knud Mohr assistiu-se a um novo estilo, menos atuante, menos cooperante com as Continentais, preferindo-se por exemplo acusar a FEPA de críticas que não existem pelo lado negativo, mas só pelo positivo. Críticas, quanto a mim justas, porque existem milhares de filatelistas à espera de regulamentos, que só em 2006 iremos, espero eu, finalmente ter. Fator positivo desta Direção da FIP foi a reorganização e saneamento financeiro da instituição. Eu aceito que quando estamos no órgão máximo da filatelia mundial torna-se difícil abrir mão de determinados poderes, mas hoje a filatelia mundial não é mais aquela dos anos 80 e 90 do século passado e a FIP tem que saber reformar-se, como fez o futebol e outras modalidades.
CFB- A FEPA, com sua forte representatividade numérica na FIP, como se posiciona em relação a atual administração FIP ?
PVP- A FEPA tem o maior respeito pela Direção da FIP e outras Federações Continentais e a sua política é de total cooperação com a FIP e outras Continentais, sem que isso signifique alhear-se das suas responsabilidades e políticas.
Durante o meu primeiro mandato discutimos dentro da FEPA as alterações aos estatutos da FIP e GREX. Agora queremos com a FIP e as outras duas Federações Continentais e dentro de um espírito democrático discutir as alterações e encontrar um texto consensual que interesse a todas as partes. Repare-se que a isto chama-se democracia, cooperação e respeito. É assim a nossa atuação. Primeiro discutimos com as nossas Federações Nacionais. Aprovadas as nossas propostas dentro da nossa estrutura, é agora tempo de partirmos para a discussão com as outras partes. Não queremos impor à FIP a razão da nossa força, mas sim a força da nossa razão. Comigo será assim e só mudará se da parte da FIP houver uma posição de intransigência relativa a determinados assuntos, que entendo têm que ser discutidos e alterados. Quando se fala em alteração dos Estatutos, fala-se em muitas alterações no funcionamento futuro da FIP e Continentais, mas sempre com diálogo e consensos.
CFB- Como se dá o relacionamento entre a FEPA e demais Federações continentais, particularmente coma a FIAF?
PVP- Bom este relacionamento, infelizmente, quase não existe. Daí a nossa proposta de alteração dos Estatutos da FIP, de forma a que as Continentais tenham uma identidade própria, vida própria, vontade própria e deixem definitivamente de estar controladas por grupos de pessoas. As Continentais devem ser controladas pelas Federações Nacionais, em todos os aspectos, onde os presidentes das Continentais sejam onipresentes, mas nunca onipotentes. A FIAF tem na realidade evoluído muito nos últimos anos, nota-se na realidade uma melhor organização e é um parceiro que eu estimo e admiro, até pelos muitos amigos que aí tenho e que muito prezo. Penso que a FEPA e a FIAF têm uma importante palavra a dizer no futuro que se aproxima, delineando políticas que sejam do interesse de ambas as estruturas.
CFB- No âmbito da filatelia portuguesa, quais as ações mais importantes levadas adiante por sua administração?
PVP- Esta pergunta é a mais difícil de responder, já que em 18 anos de presidência foi tanta coisa feita que a resposta estará sempre incompleta. Mas comecemos: implantação do Passaporte Filatélico, de um arquivo de participações filatélicas por classes e seu histórico, feiras filatélicas, leilões filatélicos, publicação da FILATELIA LUSITANA, publicação do livro dos regulamentos da FIP, exposições filatélicas, compra de um andar que rende cerca de U$ 15.000.00/ano, seminários filatélicos, protocolos com Espanha e França, apoios financeiros à juventude, elaboração de 18 Planos Exposicionais, apoios financeiros à Literatura filatélica (livros e revistas), implementação dos regulamentos de jurados, comissários, novo cartão de filatelista, novos estatutos da FPF, regulamento de disciplina, regulamento de admissão de agremiações, rotação na nomeação de jurados, milhares de ofícios, centenas de circulares, introdução das exposições inter-regionais, gênese da Associação de Comerciantes feita pela FPF, processos de admissão de jurados, introdução dos prêmios anuais de Literatura, comemoração todos os anos do Dia do Selo, encontros anuais de jurados, informatização dos serviços, fundadores da FEPA, reforma dos regulamentos dos prêmios mais importantes da FPF, e muitas outras tarefas menos relevantes, mas também importantes, porque das pequenas coisas fazem-se também as grandes coisas. Tudo isto escreve-se ou diz-se em meia dúzia de linhas ou palavras mas, acredite, que estão aí investidas milhares de horas de muitos e esforçados trabalhos.
CFB- No seu entender, exposições filatélicas são determinantes para a divulgação e avanço da filatelia? Quem as deve patrocinar? Os formatos usuais são aqueles que atendem a filatelia nos dias atuais em sua opinião?
PVP- As exposições filatélicas são fundamentais para as Federações Nacionais, filatelistas e clubes federados. Elas são o sangue supremo da filatelia organizada e razão de existência das federações, filatelistas e clubes filatélicos. Devem ser patrocinadas pelos correios, que é quem faz o negócio da filatelia e pelas federações nacionais, podendo ter também o apoio das autarquias e outros parceiros culturais e institucionais. Os modelos atuais são suficientes, mas se juntarmos inovações como as competições entre clubes ou Federações regionais ou Continentais, será uma mais valia enriquecedora. Tudo o que venha inovar e renovar o que existe, é sempre bem vindo.
CFB- Nos conte um pouco de sua trajetória como colecionador. De onde vem sua paixão pela filatelia e pelos Inteiros Postais em particular?
PVP- Comecei a colecionar com 11 anos de idade e nunca deixei de colecionar, mesmo adolescente, quando somos tentados por outras distrações bem mais apelativas que a filatelia. Comecei por comprar a coleção do meu irmão, num grande “negócio” de 80.00 escudos (30 centavos de dólar de hoje) e passei a colecionar um pouco de tudo. Mais tarde, e ainda juvenil, fiz uma coleção de Portugal e Ultramar, vindo, só a partir dos meus 20 anos, a especializar-me em Filatelia Temática. Comecei a expor em competições com 17 anos, como juvenil e de 1981 até 2005, já como senior, nunca deixei de expor, tendo-o feito em todos estes 24 anos e várias vezes por ano. Colecionei ou coleciono e expus ou exponho nas seguintes classes: Tradicional, História Postal, Inteiros Postais, Temática, Literatura, Open Class, “1 Quadro” e Juventude. Estou agora a preparar a minha primeira participação de Aerofilatelia. As pessoas pensam que a minha grande paixão está nos Inteiros Postais, mas assim não é. A minha grande paixão está ligada à “história postal” ou seja a todas as coleções como os Inteiros, História Postal, OPEN, “1 Quadro”, Aero, Tradicional, que possam conter peças postais devidamente circuladas. Na realidade tem sido nos Inteiros que as minhas classificações têm sobressaído, mas na realidade em gosto muito de “estórias postais” e repare-se que o meu primeiro livro é precisamente um longo estudo de 25 anos sobre a marcofilia portuguesa de 1853 a 1900. Só agora estou a preparar-me para fazer o meu primeiro livro relativo ao estudo dos Inteiros Postais da 1ª República Portuguesa.
CFB- Como vê a participação dos meios eletrônicos na filatelia? Eles fazem parte da solução ou são parte do problema? São eles bem-vindos?
PVP- Considero os Websites fundamentais para a promoção da filatelia. Por isso sou um acérrimo apoiante dos mesmos e por isso não compreendo porque a FIP e todas as estruturas mundiais filatélicas ainda não têm um sistema de classificação e premiação dos Websites. Durante este meu mandato na FEPA irei tratar desta lacuna, acabando-se com a confusão vigente, em que estes trabalhos umas vezes são aceitos e classificados nas exposições e noutras não.
CFB- Qual sua opinião sobre as novas Classes que vem sendo apresentadas como experimentais ("One Frame"; "Open Class" e "Websites"). Deveriam estar recebendo maior atenção da FIP, no sentido de se ter regulamentações definitivas para as mesmas, ou não?
PVP- Dos Websites já expressei a minha opinião. A OPEN CLASS foi uma idéia brilhante e por isso a FEPA “obrigou” que no Congresso FIP de Singapura fossem aprovados os regulamentos provisórios desta classe. Finalmente temos algo de concreto para esta classe. A classe de “1 Quadro” foi igualmente uma brilhante idéia, mas como está deficientemente regulamentada, assiste-se a uma total confusão e muita batota.
Não posso aceitar que das grandes coleções existentes alguém possa sacar 1 quadro e apresentá-lo como de “1 Quadro“ se tratasse. Isto não é correto. As participações de “1 Quadro” destinam-se às novas coleções, aos pequenos estudos dentro das várias classes, mas jamais devem ser utilizados estratagemas só para ganhar medalhas. Este não é o objetivo da classe de “1 Quadro”. Porém, tal acontece porque ainda não temos regras claras para todos. Logo, devemos todos, mas todos aprovar estas regras no Congresso da FIP de 2006, fazendo com que tais classes sejam devidamente regulamentadas, já que elas são uma realidade mundial, onde milhares de colecionadores dedicam longas horas ao seu estudo e montagem.
CFB- O Sr. acaba de publicar um belíssimo livro, fruto de um profundo estudo sobre as marcas postais da filatelia portuguesa. Fale-nos sobre ele.
PVP- “OS CORREIOS PORTUGUESES ENTRE 1853-1900 , Carimbos Nominativos e Dados Postais e Etimológicos” foi uma obra que iniciei em 1979. Nesta data ninguém dava em Portugal qualquer importância às marcas nominativas usadas no início do período adesivo. Pacientemente fui colecionando, recolhendo informação, peças, imagens de peças, investigando e 25 anos depois produzi um livro que me entusiasmou e concretizou este meu grande sonho, que era o de produzir um trabalho inédito na filatelia portuguesa. Par ficar mais completo decidi incluir-lhe muita outra informação, como a demografia das povoações, todas as estações postais, a classificação de cada estação, os períodos de uso dos carimbos, os caminhos de ferro, as linhas telegráficas, um pouco de história de cada povoação ligada basicamente à concessão dos forais e ainda a etimologia das terras que tinham correio. Para ser mais abrangente incluí as ilhas da Madeira e Açores. É na realidade uma obra grande, mais de 900 páginas. Eu gosto muitíssimo dela, mas eu sou suspeitíssimo ….
CFB- Qual o papel da Literatura filatélica? Que meios poderiam ser utilizados para estimular e ampliar a produção de literatura filatélica em lingua portuguesa?
PVP- A Literatura filatélica é na realidade vital para o desenvolvimento da filatelia e digo isto em todas as suas vertentes. Revistas, jornais, colunas filatélicas, livros são a história da filatelia e uma fonte de ensino e aprendizagem únicos. Só pode ser filatelista de competição aquele que tenha em sua casa uma boa biblioteca, onde possa atualizar e desenvolver os seus conhecimentos e aí encontrar as bases dos estudos filatélicos que faz. Porém, publicar literatura não é fácil. Hoje é extraordinariamente caro se quisermos ter obras de nível e é precisamente aqui que entra o velho ditado: “A necessidade é a mãe do engenho“. Precisamos de ter primeiro força de vontade e gosto para editar uma publicação e depois engenho para a fazer publicar. Repare que eu sou diretor de duas revistas, FILATELIA LUSITANA e FEPA NEWS, que custam respectivamente US$ 4.000.00 e 6.500.00 por número e acabo de editar um livro cuja impressão custou US$ 25.000.00. Acredite-se que foi e é necessário ter primeiro vontade e gosto para editar os trabalhos e depois engenho para encontrar os patrocinadores e os anunciantes para pagar grande parte destas publicações. Se tivermos em consideração que a FILTELIA LUSITANA é publicada 3 vezes por ano e a FEPA NEWS apenas duas, concluímos que os valores já começam a ser significativos. Quando se tem na realidade vontade, uma revista ou um jornal filatélico podem ser sempre editados e pagos e custam aquilo que nós pudermos pagar, mas para mim é fundamental publicar literatura com interesse filatélico, mesmo que a impressão e o papel não sejam os melhores. Por exemplo, temos em Portugal uma pequena mas interessantíssima revista de divulgação filatélica do CLUBE BP, que é toda composta pelo seu Presidente, Carlos Calheiros da Silva, e depois fotocopiada a cores, ficando com um aspecto muito bom e servindo claramente os seus objectivos, que são o de divulgar a filatelia. A criação de prêmios filatélicos de literatura é um dos modos de incentivar a literatura. Incentivar a literatura depende também do apoio que as Federações Nacionais conseguem obter dos correios, mas isto não chega. Por exemplo, em Portugal a Federação Portuguesa conseguiu que o Correio pagasse US$ 900.00 por cada revista publicada, mas temos casos em que as revistas não são publicadas por manifesta falta de tempo ou interesse dos seus directores ou clubes. Logo esta atividade não sendo paga, fica muito condicionada à vontade das pessoas e dos filatelistas e todos nós sabemos o quanto isto condiciona a literatura, já que normalmente as pessoas são preguiçosas para escrever. Logo, estímulos podem encontrar-se junto dos correios, câmara municipais e outras entidades que estão sempre dispostas a ajudar. O difícil muitas vezes é encontrar pessoas com vontade de o fazer.
CFB- Quais, em sua opinião, são as perspectivas da filatelia para os próximos 10 anos? e para os próximos 50 Anos?
PVP- A Filatelia irá ser cada vez mais um negócio em expansão. Repare no grande número, quase incontrolável, de emissões filatélicas ilegais que proliferam à venda na Internet. Se existem, é porque se vendem. Hoje falamos em milhões de dólares de negócios que dão emprego a milhares de pessoas. Digo várias vezes que se o negócio da filatelia terminasse de repente teríamos a nível mundial uma mini crise. Contudo, teremos sempre de dividir a filatelia em dois sectores bem destintos: os filatelistas ajuntadores e os filatelistas. O comércio encarregar-se-á de manter vivo o negócio em ambas as classes, mesmo que cada vez se enviem cartas com menos selos. No século XX estudou-se o século XIX e no século XXI irá ser estudado o século XX e assim sucessivamente. O colecionismo faz parte da essência humana, em especial dos homens e se tivermos o engenho de manter um espírito competitivo e bolsista na filatelia, esta continuará a ser um grande pólo de atração para os coleccionadores dos próximos séculos.Para mim, os próximos anos serão de expansão da filatelia a nível mundial e para isso só temos que ter políticas que cuidem bem dos filatelistas em todos os aspectos. A inércia será sempre inimiga destes objetivos.
CFB- Como vê a ações conjuntas entre a filatelia portuguesa e brasileira. São ações importantes e pertinentes para ambas as partes?
PVP- Se dois países conseguem manter desde 1966 uma relação fraterna, cordial e de grande amizade como o têm feito Portugal e o Brasil, é porque ambas as partes se sentem bem e entendem que esta relação tem dado excelentes frutos e é para continuar. Repare-se o carinho com que ambas as partes se tratam. Falamos a mesma língua, queremos o mesmo para os filatelistas luso-brasileiros, temos o mesmo sentimento do dever. Estas ações conjuntas têm que continuar dentro de um espírito de cordial fraternidade humana e cultural e mesmo que apareçam de vez em quando alguns que assim não sentem ou pensam. Esse são os “estrangeirados” que não têm no sangue o fado e o samba, o vinho tinto e a caipirinha, não têm este sentimento de fraternidade e estão acoplados a outros interesses muitas vezes estrangeiros, “made“ em outros locais. A identidade luso-brasileira não se compra ou vende-se, pratica-se no dia a dia, ano a ano, nos momentos em que podemos colaborar com todos e trocar as nossas experiências, as nossas idéias e ideais. Portugal e Brasil, são estou certo, um exemplo a nível mundial nas relações bilaterais e hoje todo o mundo sabe o que são as LUBRAPEX. Só é pena que 9.000 Km nos separem, porque de outro modo a nossa colaboração seria ainda mais estreita.
CFB- Tem opinião formada sobre as questões que envolvem atualmente os aspectos federativos relacionados a filatelia brasileira?
PVP- Os assuntos internos do Brasil devem ser resolvidos pelos brasileiros. Como dizia esse meu grande Amigo e grande Filatelista Brasileiro, General Euclydes Pontes: “A roupa suja lava-se em casa!” Porém, e já que me solicitou, poderei dar a minha opinião, sempre frontal e clara. Sou sempre um legalista e não aceito a formação de Federações paralelas em países democráticos, com tribunais democráticos e onde a democracia se vive em pleno. As discussões devem ser feitas dentro da estrutura oficial, seguindo uma forma democrática. Se algo está contra as regras ou se existem fraudes, então recorra-se à justiça, acione-se processos judiciais, punam-se os infratores nos Conselhos de Disciplina. Estou informado que no Brasil foi criada uma Federação paralela com três clubes e alguns poucos filatelistas. Recebi o último número da revista desta Federação, onde vem publicado o regulamento dos jurados e fiquei espantado quando se fala do acesso de jurados desta estrutura à FIAF e à FIP. Isto só significa que de futuro o caso interno do Brasil se vai internacionalizar e que a posição do Brasil vai ser delicada a nível internacional. Realizar-se uma exposição nacional, com o apoio do Correio, gastar-se uma enorme verba e depois nenhuma dessas classificações ser reconhecida pela FIP e FIAF, parece-me perda de tempo e dinheiro, se tivermos em consideração que as verbas nunca abundam. Logo, se a atual Direção da FEBRAF não serve, então que se explique porquê, combata-se para fazer passar as nossas idéias, proponham-se alternativas, apresentem-se listas, faça-se tudo para alterar democraticamente a situação, mas a criação de uma nova estrutura só cria mais confusão a nível interno e internacional. Repare-se no exemplo do México e no que aquilo no fim deu: apenas confusão e nada mais, onde uns mais do que outros saíram chamuscados e onde a FIP foi indevidamente envolvida e deixou-se envolver de uma forma pouco clara e indevida. Em Portugal tivemos uma situação parecida nos anos 80 e em nada deu. Logo, sentem-se à mesa, partam “pedra” no local próprio, decidam democraticamente, mas “lavem a roupa suja em casa” e não nas praças internacionais. Como Presidente da FEPA nunca promoverei ou votarei pela aceitação de novas Federações, provenientes de países democráticos com tribunais democráticos e com vida democrática. Que se respeite a legalidade e a democracia instituída e as vontades democráticas. Quero expressar claramente que esta minha posição é institucional, igual para todo e qualquer país filatélico em qualquer Continente e não tem nada de pessoal por este ou contra aquele brasileiro. Pediu-me a minha opinião e aqui a tem com a frontalidade que sempre coloco nas minhas opiniões.
CFB- O espaço agora é seu. Dê sua mensagem para os filatelistas brasileiros.
PVP- A filatelia é maravilhosa. Peço aos meus fraternos amigos do Brasil que escrevam muito, editem revistas, colecionem e investiguem, trabalhem muito na Federação, nos clubes, em todo o lado onde possam promover e divulgar esta maravilhosa forma de colecionismo. Que sejam leais e corretos nas suas relações e que se respeitem mutuamente. Se assim conseguirem fazer, as diferenças serão menores e a solidariedade muito maior, mas isto só são palavras minhas, porque o homem é na realidade um animal complexo, tal como dizia Jean Jacques Rousseau: “O homem é o lobo do homem”. Deixo apenas uma última mensagem da minha total disponibilidade para todos vós naquilo que deste canto pátrio de mim necessitarem e deixo as revistas de que sou director abertas a todos vós, dentro da fraternidade e solidariedade que sempre nos uniu e que sempre nos unirá, mesmo que às vezes pensemos de forma diferente.
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