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GEOGRAFIA NOVA, PITORESCA E ENIGMÁTICA
por Renato Amral Machado
Mensalmente, recebo de uma simpática casa filatélica de Paris, que se diz "a especialista francesa em novidades do mundo", publicação denominada "Contacts Philateliques". Trata-se de oferta de novas emissões quase todas temáticas.
A princípio não dediquei muita atenção aos opúsculos, mas no dia que o vagar, ou falta de melhor ocupação, levou-me a deter-me na leitura de um dos números do mensário, logo por ele me interessei, passando a seu leitor atento e assíduo, não pelo apelo filatélico que possa ele conter, mas para aferir e envergonhar-me da minha ignorância da geografia contemporânea, pelo menos em sua face postal.
Intrigam-me os nomes de países (7!), cuja localização é desafio à argúcia e à pesquisa das melhores e mais completas cartas geográficas do mundo, ou livros de história e geografia. Minha perquirição redunda em fracasso humilhante, pois não consegui, até hoje, saber onde se situam, qual a forma de governo, características étnicas de seu povo, atividades econômicas que ali preponderam, ou a estrutura política dessas terras misteriosas de nomes extravagantes e muitas vezes de difícil pronúncia.
Comprazo-me no esforço quase masoquista de pôr à prova minha ignorância; vexo-me sempre do meu inexpugnável desconhecimento, sobre "países" que se chamam: Birobidjan, Vanuatu, Ninaf'ou Tadjikistan, Peurhyn, Turkmenistan, Tuvalu, Tchequie, Bunatia, Eynhallow, Kampuchea, Kirghizie, Oceano Índico (?!) Aitutaki e outros mais de um elenco nada acanhado.
Não chego a afirmar que enrubesço da humilhação de tanta insciência das nações e povos deste mundo que, também, eu habito, porque não me é dado o hábito narcisista de ler diante do espelho, mas que chego a penalizar-me de minha insipiência irreversível, não o nego. Ou os atlas e cartas que hoje se editam são defectivos e falhos, ou esses países não existiriam? Mas como podem eles não existir se emitem selos? e se o fazem é porque têm serviço postal organizado, população alfabetizada que mantém correspondência, transmite idéias, pensamentos, desejos, negócios, reclamos, sentimentos, alegrias, tristezas e tudo quanto é possível fazer caber em uma carta. Ë como esse universo de cultura pode omitir-se em algum lugar da Terra que eu não consiga saber onde fica?
O drama é angustiante.
O selo é, antes de tudo, um convite a viajar, um estímulo a sonhar, um chamamento a recordar. Se contemplamos o selo emitido por um país que conhecemos, nossa memória revive as paisagens, os monumentos, as exteriorizações da sociedade que nos foram dadas apreciar quando lá estivemos. Se é ele de uma terra conhecida mas não visitada, nossa imaginação põe-se em marcha, aliando-se à curiosidade, ao desejo de lá ir e vasculhamos na lembrança o que já lemos sobre ela, as fotos que vimos, os "filmes" lá ambientados que tivemos ocasião de assistir.
Mas quando nada sabemos dessas terras ignotas e seus povos desconhecidos e seus hábitos ignorados? Como encontrar-lhes os vestígios?
Ë como olhar sem ver. Indagações sem respostas. Frustração integral. Escuridão absoluta. Essas nações misteriosas desafiam, perversamente, nossa sede de descobri-las. Quando o desespero a nós domina, acode-nos a idéia salvadora: os catálogos, geralmente, fazem preceder a listagem dos selos de cada país, duma nota informativa-histórica sobre ele, ao menos, localização, área, população, capital e forma de governo.
Porque não nos lembramos disso antes?
Não teria havido razão para tanta frustração. Ë tudo muito simples, basta consultarmos um catálogo de selos universais e iremos encontrar se não todas, a maioria das respostas desejadas. Como foi possível esquecermo-nos dessa providência tão elementar e intuitiva? Basta recorrer ao catálogo que temos à mão e nos iremos remir do vergonhoso pecado de ignorar tudo sobre tantos.
Da lembrança à consulta não mais que um átimo. Em segundos, catálogo sendo folheado na busca ansiosa e redentora.
Decepção maior: o respeitado e bem informado Scott, tanto quanto nós, parece desconhecer (ou será que prefere ignorá-los?) esses prósperos e progressistas países emissores de tão belos selos, refletindo e comemorando os mais atuais e importantes eventos, fatos, personalidades e manifestações culturais, políticas, sociais, esportivas, ou científicas.
Estarei eu errado, ou essas terras são mesmo países faz-de-conta; criados pela matreira imaginação dos espertalhões que criam na filatelia um veio rico para lograr lucros fáceis da ingenuidade de colecionadores desprevenidos e/ou inexpertos? Se assim é, até não teria maior importância para a filatelia de verdade, se as maiores vítimas dessa grande empulhação fossem adultos ingênuos ou desapegados de seu dinheiro e destituídos daquele mínimo instinto de colecionador, capaz de alertá-lo para o enorme embuste, mas quando nos capacitamos de que o alvo precípuo da especulação desonesta são as crianças, é de preocuparmo-nos pelo futuro da filatelia séria. Quando esses jovens hoje, iniquamente, explorados pelos marginais da filatelia atingirem a idade do raciocínio e se derem conta de haver sido vergonhosamente ilaqueados na boa-fé inerente à ingenuidade da juventude, sua revolta não englobará todos nós, os filatelistas experientes que os não advertimos, levando-os mesmo a julgar a filatelia como maroteira de pessoas menos escrupulosas?
Se meu eventual leitor tiver respostas para as perguntas que aqui lhe deixo, por favor, não se recuse a dá-Ias. Serão benvindas e podem fazer com que desista eu do propósito de voltar ao tema que me preocupa e, mesmo, revolta.
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