• FILATELIA HOJE: QUESTÕES A SEREM PENSADAS
    por Rubem Porto Jr.)

    Começo por dizer que, de meu ponto de vista, não vejo a filatelia deixando de ser aquilo que sempre foi: um dos mais difundidos passatempos de todo o mundo. Se olharmos apenas para a filatelia brasileira, isso pode até ter um pouco de exagero, haja visto que, nós que militamos na filatelia organizada, estamos atuando a partir de pressupostos equivocados e não temos sido capazes de ter um projeto conjunto (Federação, Clubes, Correios, Colecionadores Jornalistas e Comércio) que implique na difusão e sustentação filatélica. Entendo, entretanto, ser este apenas um lado de uma questão complexa. Há um outro lado, fora do colecionismo competitivo ou federado, que segue em frente, sem ajuda ou atenção de ninguém ou quase ninguém, mas que gera prazer, lucro e diversão.

    De qualquer forma, não creio que a o hábito de colecionar selos vá se perder. Não aceito que isso vá se tornar realidade. Esta minha expectativa otimista vem daquilo que percebo acontecer em minha casa quando meu pequeno filho (João, 6 anos) se interessa em me acompanhar nas minhas jornadas filatélicas, diga-se que sem que seja forçado a isso, mas apenas por sua latente curiosidade e pelo fato de eu, nestes momentos, estimulá-lo a olhar, manusear, estudar e guardar os selos e fazê-lo perceber quão interessantes podem ser aquelas "figurinhas" que não são compradas nos jornaleiros nem são trocadas com os coleguinhas de escola (por enquanto!).

    Vem ainda quando vejo despontar, aqui e ali, um ou outro jovem, como aqueles de Cantagalo, Cidade do interior do Estado do Rio de Janeiro, que funcionam como indicadores de que se o trabalho for bem feito, despreendido e continuado, pode frutificar. Entretanto, também é fato de que nosso passatempo deixou de ter aquele apelo lúdico, que nos levava a viajar através do selo postal. Ele hoje perde terreno, já que as gerações mais novas não foram conquistadas de maneira efetiva por falta de um trabalho sistemático e também (principalmente?) por conta de mudanças de paradigmas que ainda não foram percebidas pela maioria daqueles que militam na filatelia organizada, infelizmente.

    A luta travada com outras formas de entretenimento (videogames, televisão, internet), a vida agitada cheia de afazeres que nossas crianças tem hoje, ampliou em muito o leque de opções de entretenimento (ou de ocupação) de nossos jovens. Ao mesmo tempo, a manutenção, por nós filatelistas, de um padrão tradicional associado ao colecionismo dos selos (e porque não dizer de um certo ridículo purismo filatélico), fez com que, para essa geração afeita a rápidas conquistas e a hiperatividade, o colecionismo dos selos, nossa filatelia, parecesse algo associado ao passado, aos velhos tempos.

    Podemos aqui tentar discorrer rapidamente sobre eventuais motivos para isso estar acontecendo: qual seria a razão para este afastamento dos jovens? Será que o colecionismo de selos não está sendo promovido de maneira correta para o mercado mais jovem? Será que mesmo onde o trabalho é mais intenso e contínuo há desinteresse do jovem pela filatelia? Fiz um esforço para tentar compreender esta questão e me propus a identificar motivações que pudessem servir como apoio as iniciativas de disseminação da filatelia entre os jovens. A pergunta inicial que me fiz foi: o que leva (ou levou) as pessoas a colecionarem selos? Que vantagens podem ser atribuídas ao este tipo de colecionismo?

    A Questão Educacional

    É evidente que o colecionismo de selos pode ser utilizado para o desenvolvimento de aprendizado entre as crianças e jovens com vários níveis de abordagem. A partir dos selos, temas referentes a geografia, história, cultura, ciência, esporte, sistemas monetários e moedas correntes, arte, ecologia, etnografia, dentre tantos outros assuntos, podem ser abordados. Assim, por que será que os pais não estão encorajando as crianças a iniciarem coleções de selos? A resposta mais óbvia é porque a maioria dos pais desconhece este potencial (assim como a maioria dos mestres de nossas crianças). Além do mais, as crianças têm uma fonte de informação hoje, quase inesgotável e ao alcance da ponta de seus dedos: a internet. Esta poderosa ferramenta que pode, sem esforço, proporcionar respostas a quase totalidade das perguntas. Como lidar com isso? Qual a estratégia é mais apropriada? Creio que só há um caminho: juntarmo-nos a ela! Além dos benefícios relativos ao aprendizado, o colecionismo de selos traz ainda outros benefícios educacionais: quem coleciona selos desenvolve habilidades relativas a organização, disciplina, negociação, dentre outras. Estas habilidades são importantes na formação do jovem e fundamentais para a vida. Sem elas, como sobreviver ao mundo competitivo dos dias de hoje?

    E a Pressão Social?

    Será que uma criança que hoje desse início a uma coleção de selos seria aceita na "coletividade infanto-juvenil" como "normal"? Será que ela seria ridicularizada por desenvolver uma atividade que pode ser vista como "ultrapassada"? A resposta, provavelmente, é sim e o receio de se sentir desprestigiado perante seus amigos e de ser excluído de um eventual convívio com os mesmos, pode levar ao desestímulo do jovem colecionador. Há de se ter atenção a isso, mas é obvio que isso só acontecerá se o jovem não tiver uma boa orientação sobre o que representa tal passatempo e não souber inseri-lo no convívio com seus colegas. Entretanto, quando isso acontece, a aceitação pode ter efeito multiplicador. É obvio que nos dias atuais o ato de colecionar selos disputa o tempo dos jovens com tantas outras atividades, quase sempre desenvolvidas de modo solitário, que acaba por se apresentar como excentricidade. O fato é que a curiosidade intelectual das crianças não sofreu modificações nestes tempos. Pergunto: as crianças seriam menos curiosas no mundo de hoje? É claro que não, as crianças continuam curiosas, talvez até mais já que muito mais estimuladas. Entretanto, elas agora têm meios mais fáceis, ágeis, modernos e plenamente inseridos nos mecanismos de conquistas tecnológicas recentes que as levam a satisfazer sua curiosidade de outras formas.

    Os saltos tecnológicos acontecidos nos últimos anos foi muito melhor absorvido pelas mentes abertas, pelos neurônios jovens e disponíveis, ou seja, pelas crianças e jovens. A televisão hoje com tantos canais educacionais disponíveis alimenta e desenvolve a mente, deixou de ser a grande vilã. Se a isso unirmos a maior "biblioteca" de informação jamais imaginada estabelecida pela existência da internet, compreenderemos que as crianças podem viajar, aprender e conhecer o mundo sem precisar viajar nos pedacinhos de papel que em nossa infância tinham essa função.

    Devemos portanto é inserir de maneira prática, lúdica, mas objetiva, a filatelia neste contexto. A sobrevivência de nosso passatempo, passa pela inserção de mais jovens nele e esta inserção só acontecerá se modernizarmos os mecanismos de disseminação da filatelia.

    A filatelia já foi considerada o passatempo dos Reis. Isso foi importante naquele momento em que haviam muitos reis e reinos. Hoje também esta faceta do mundo está mudada. Assim devemos tratar de dismitificar, de simplificar, de desregulamentar a atividade para com isso tentar massificá-la, democratizá-la, expandí-la. Estamos diante de uma mudança de paradigma. Como sempre, mudanças deste tipo sempre vão trazer conflitos e descontentamentos até que a nova ordem se estabeleça. Precisamos pensar sobre isso e aceitar plenamente estas mudanças, senão....




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