• PAÍSES LARANJAS
    por Renato do Amaral Machado

    Uns apontamentos que rabisquei, há pouco tempo, sobre emissões abusivas de paises faz-de-conta, (talvez melhor fora ter escrito "paises"), teve não só leitores, como repercussão. Melhor assim. Grande alegria causou-me o telefonema do amigo Firmino, do Ceará, comunicando haver-me honrado com a leitura daquelas observações despretenciosas e anunciando-me a existência de um livro, de certa forma dedicado ao tema, prometendo fazê-lo chegar as minhas mãos. Realmente, alguns poucos dias passados, recebi, com gentil dedicatória do autor, Luis J. Gintner, um exemplar de seu meritório e pacientíssimo trabalho "Em busca de Liliput", no dizer de seu autor "uma visão geral e curiosa dos menores paises do mundo."

    Trata-se de exaustiva pesquisa sobre os "países inexistentes" como os chamou o poeta Múcio Leão, em belos versos que Gintner teve o bom gosto de transcrever nas páginas prefaciais de seu livro, sobre os "micropaises especulativos", no autorizado conceito do autor. A meticulosidade de Gintner levou-o a listar mais de 100 dessas pilhérias geopolíticas, frutos da extravagância de ricos, como a quixotesca "Sealand", não mais que uma velha plataforma petrolífera abandonada no Mar do Norte, ou da cupidez de aventureiros, como aquele que, na Austria, construiu, um globo para servir-lhe de casa e caricato País independente, cujas proezas já lhe causaram processo penal e condenação merecida.

    Provavelmente - quase certamente, atrevo-me eu a dizê-lo - o autor não é filatelista e, por isso, não se apercebeu dos malefícios que trazem à filatelia essas emissões ridículas e nocentes, a elas se referindo com tolerancia e aparente simpatia, dizendo mesmo merecerem aplauso dos filatelistas que, segundo ele, as recebem com agrado. No particular penso estar bem enganado a autor: aos verdadeiros filatelistas só desagrado, repugnãncia e desprezo, provocam tais selos.

    Quase todos, emitem selos postais para lesar os filatelistas, ao mesmo tempo que lhes serve como exteriorizacão de "soberania". Ao ler o útil livro de Gintner, capacitei-me de ter o problema dimensões muito maiores do que as que presumia eu. É ele, portanto, bastante mais grave e parece-me estar a exigir cautelas mais efetivas das organizações filatélicas, cuja passividade se faz imperdoável.

    Entendo caber à Federaçäo Internacional de Filatelia, se é que ela, ainda, atua em prol do colecionismo sadio, listar esses emissores de supostos selos postais e relacionar como abusivos esses selos, fazendo divulgar, por todos as meios ao seu alcance, e nisso solicitando a colaboração efetiva das organizações afiliadas, a relação dos selos despropositados, para que se não continue a ilaquear a boa fé dos ingênuos e, sobretudo, dos iniciantes no colecionisrno. E dessa luta sanitária deveriam, também, participar comerciantes, abandonando uma complacência que, a curto prazo, pode render-lhes dividendos, mas cujos efeitos, no futuro mais remoto, ser-lhe-á, sem dúvida, nociva.

    É claro que tudo sobre a face da terra é colecionável, mas o que distingue a filatelia das colecões descomprometidas com o estudo sério do objeto alvo do vezo de reuni-las com pouco ou maior método, disciplina ou catalogação é, sem dúvida a seriedade do estudo que ela exige e é a sua marca maior.

    Se não houver uma separação bem nítida entre o selo emitido para fins postais por administrações nacionais especializadas no transporte de correspondência e aquela figurinha colorida que leva estampados o nome de um país inexistente e uma, expressão monetária, na maioria das vezes, de pura fantasia, impressas por espertalhões aplicados a lesar a próximo, a filatelia terminará minada por esse contubérnio pecaminoso que a conduzirá ao descrédito consequente dessa promiscuidade deletéria.

    0 novisso "Dicionário Houaiss da lingua portuguesa", foi extremamente feliz ao consignar, inauguralmente, o significado mais atual, na linguagem figurada, do substantivo laranja na giria brasileira, sobretudo no noticiário jornalístico dos fatos policiais e, lamentavelmente, também, ou mais, na conduta dos nossos administradores e homens públicos, hoje grandes usuários desses "colaboradores". Se consultarmos os dicionánios mais antigos, certamente, não iremos encontrar registrado o sentido vulgar do vocábulo, até porque os dicionanistas mais conservadores pareciam ter escrúpulo de incluir a gíria em seus trabalhos. No século recém-findo é que aparece no jargão popular a acepção de indivíduo tão, ingênuo, tosco sem importância, ou inexpressivo, para a paiavra. Mas na medida em que neste país se foram empregando, e com que frequência se as usa, esses presta-nomes, biombos de negócios inconfessáveis, testa-de-ferros, verdadeiros pseudônimos para a prática de fraudes fiscais e crimes de natureza vária, foram eles se fazendo classe numerosa, profissionalizada, com especialização, não demorando o momento em que se irão reunir em entidades de classe, sindicatos, sociedades sócio-recreativas e tudo a mais com que o despudor dos tempos atuais permite e até concita.

    Vejamos a inteligente e abrangente definição do "laranja" do recém editado Houaiss: "5 fig. inform. individuo, nem sempre ingênuo, cujo nome é utilizado por outro na prática de diversas formas de fraudes financeiras e comerciais corn a finalidade de escapar do fisco ou aplicar dinheiro de origem ilicita, testa de ferro". No que concerne a esses países liliputianos, certarnente mais correto seria corrigir a frase destacada, por nunca ingênuos.

    Ou reunimos esforços para sanear a filatelia, dela banindo essas emissões caricatas, ou, no mínimo, estaremos fazendo com que o colecionador se faça alvo da irrisão da sociedade e, inevitavelmente, destinatário da mofa por não ser capaz de vislumbrar o ludíbrio de que está sendo vítima. A prosperar o vezo, em breve, teremos pudor de nos confessar filatelistas, pelo menos, diante de leigos.



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