• Meu Deus! Prata de novo!? Ou, as decepções de um expositor.
    por Rubem Porto Jr.

    Este comentário vem se tornando clássico! Vem sendo feito por um bom número de filatelistas expositores logo após a divulgação do resultado das exposições. Por vezes, muda apenas o tipo da medalha.

    É claro que este comentário se aplica às coleções “intermediárias”. Porém, elas correspondem a cerca de 60 a 70% de todas as presentes nas várias exposições que tivemos a chance de participar nos últimos tempos. Então, temos de ter atenção.

    Em geral, nós expositores, sempre julgamos que poderíamos obter um resultado melhor do que aquele que foi divulgado. Se não uma medalha melhor, pelo menos uma pontuação que nos leve para mais próximo de nosso objetivo. Afinal, entre cada uma das exposições de que participamos, tentamos melhorar nossas coleções, adquirindo novas peças, remontando folhas, melhorando a apresentação, quase sempre baseados no que os jurados comentam conosco durante a realização do evento, ou então a partir de contribuições de outros colegas filatelistas ou análise das folhas de pontuação.

    Os expositores, em sua maior parte, conhecem os regulamentos e sabem quais são os itens a serem julgados. Sabem, também, quantos pontos cada um deles representa no todo. Portanto, se tiver espírito crítico, cria a sua espectativa real de premiação... quase nunca atingida!

    Entretanto, o que a maior parte dos colecionadores não sabe, e gostaria de saber, é qual o mecanismo, a forma e os conceitos que são utilizados pelo quadro de jurados durante a avaliação das coleções. Muitas vezes, nós expositores, nos perguntamos: mas afinal, porque esta coleção obteve Prata Grande e esta, que tem o mesmo nível, obteve somente Prata? Porque esta chegou a Vermeil e esta outra, similar em tudo, não conseguiu?

    Creio que, por vezes, falta ao corpo de jurados um pouco de sensibilidade. Sensibilidade em perceber que aqueles um ou dois pontos que faltaram, em suas opiniões àqueles expositores, para que os mesmos pudessem dar um pequeno salto de qualidade, podem representar um grande estímulo ou uma grande perda.

    Um grande estímulo, se recebê-los, pois que, se tivesse sido reconhecido seu esforço, certamente se sentiria encorajado a continuar sua busca por melhores resultados, o que implica em dizer, faria com ele estudasse mais, renovasse suas peças, procurasse mais informações sobre o objeto de estudo, enfim se sentisse estimulado a se envolver ainda mais com a atividade filatélica. Porém, será, uma grande perda, se não recebê-los, pois, após mais este desestimulante resultado, e depois que isto acontece com alguma regularidade, a tendência é esse expositor se sentir desestimulado, e desistir, se não de colecionar, pelo menos de expor e aí perdemos todos nós.

    Que fique claro que não estou aqui propondo ou sugerindo nenhum libelo pelo disvirtuamento, pela facilitação dos julgamentos das coleções. O que estou aqui comentando é que, além de sermos expositores, somos também apreciadores, e, de certa forma, conhecedores das regras e das peças, e, portanto, temos também a capacidade de avaliar e comparar os materiais expostos e de chegarmos as nossas próprias conclusões. O que vemos é que, muitas vezes, nossas conclusões não estão em consonância com aquelas divulgadas, principalmente no que se refere a estas coleções aqui denominadas de intermediárias.

    Se estamos presentes no local da exposição, sempre poderemos procurar os jurados para sermos informados dos erros e acertos cometidos. Em geral, falo aqui sobre a minha experiência, apesar das gentilezas no atendimento, nos são dadas aquelas informações mais óbvias, em geral nos mostrando o que está certo e não o que está errado, sem que seja acrescentada uma informação realmente fundamental. Esta é a minha experiência. Pode ter sido diferente com outros. Mas, e para aqueles que não puderam se fazer presentes no local da exposição? Para esses, seguirá a ficha de avaliação, onde poderemos observar a pontuação para cada um dos itens regulamentares avaliados, bem como eventuais observações. Há espaço na ficha para isso. Tudo muito certo. Aparentemente!

    Vamos a um caso específico. Expus uma coleção na Lubrapex 2003 na Classe Tradicional. Recebi uma Medalha de Prata Grande com 71 pontos. Não vou entrar aqui no mérito da discussão, que seria infrutífera neste momento, se foi ou não adequada a premiação que recebi. Quero discutir, isso sim, a qualidade da informação contida na ficha de avaliação e os problemas que ela nos tráz, ao invés das soluções esperadas. Independentemente de concordar ou não com a pontuação a mim atribuída, o que me chama a atenção no caso é o fato de não haver nehuma espécie de comentário relativo à esta pontuação! Como se os pontos, ali lançados, fossem, por si próprios, suficientes para esclarecer todas as minhas dúvidas e justificar a premiação.Não são! Até porque, em função da falta de explicações, ou observações, ou de qualquer outro nome que se queira dar, considero que, em pelo dois dos quatro itens avaliados, minha pontuação foi mais baixa do que deveria, e eu tenho como argumentar a favor do meu ponto de vista. Eu gostaria é de conhecer as considerações, os argumentos, daqueles que julgaram.

    Para mim, que estive lá presente durante toda a exposição, e que vi cada um dos quadros expostos, fica a certeza de que o julgamento varia em função de alguns parâmetros e estratégias que não aparecem com nitidez na ficha de avaliação. Ou então, e isso pode ser também verdade (tomara que seja!), eu entendo muito pouco de filatelia.

    O fato é que pude observar coleções similares a minha que receberam uma melhor pontuação e, eventualmente, uma medalha melhor em função disto. E estou aqui comparando, principalmente, com coleções portuguesas e espanholas.

    Gostaria de sugerir que, pelo menos no que diz respeito às exposições de âmbito regional, nacional e binacional, fosse obrigatório por parte do corpo de jurados brasileiros a entrega de um pequeno relatório ou de uma pequena justificativa onde os pontos a serem melhorados fossem claramente assinalados, bem como aqueles itens onde a subjetividade é maior (tratamento da participação, por exemplo) fossem melhor explicados. Coisa simples, que poderia ser feita com pequeno gasto de tempo dos jurados, e que seria de fundamental importância para nós compreendermos um pouco melhor os números que nos são atribuídos. Tenho a convicção de que esse compromisso, facilitaria, ou pelo menos explicitaria, as coisas, minorando insatisfações dos expositores. Estou convencido de que isso é um fator fundamental na melhora do nível das coleções brasileiras, e que permitiria uma ascenção segura a todas elas.

    Quanto a possível argumentação de que esta exigência venha a criar problemas pois aumentaria a carga de trabalho normal dos jurados, não me parece ser argumento aceitável. Afinal, realizar “o trabalho” é inerente a toda e qualquer atividade que nos propomos a executar. Cada qual deve, isso sim, é avaliar se este “ônus” a mais corresponde ao “bônus” eventualmente a ser recebido. Vai do pensamento de cada um. Entendo que deva haver, também, uma aproximação maior entre expositores e o quadro de jurados nacional. Assim como acredito ser necessário, de maneira urgente, aumentar o quadro brasileiro de jurados e comisários nacionais e internacionais.Aproveitemos as oportunidades que surgirem daqui para frente, para treinarmos novos quadros. A diferença de abordagem provocada por participação de diferentes pessoas, com diferentes formas de pensar e avaliar é salutar em qualquer situação. Creio que os expositores devam também se preparar para fazer a sua parte. Isso implica em seguir os regulamentos, estudar o assunto com mais vigor, investir seu tempo (e dinheiro, eventualmente) na busca da melhoria de sua coleção e criar um “memorial” de sua coleção, anotando as modificações pelas quais ela passou entre uma e outra exposição e enviando este material, através de seu Clube, para a Federação, para que ele chegue ao conhecimento daqueles que irão julgar sua coleção e com isso tenham em mãos argumentos que possam preconizar a melhora eventual da premiação da coleção, ou não.

    Acredito ser isto um passo fundamental para a evolução das coleções brasileiras. Entendo ser importante que tal sugestão tenha caráter obrigatório, pelo menos para aquelas coleções que estejam no nível intermediário qualidade (até cerca de 75 pontos em exposições nacionais, por exemplo), pois é aí que a colaboração se faz mais necessária. É aí que se prepara o salto de qualidade para as coleções de maior nível, mas é aí, também, que podemos chegar a conclusão que aquela coleção não irá muito mais longe, seja lá por que motivo for.

    Me referi aqui ao julgamento de minha coleção na Classe Tradicional. Mas tenho a convicção de que o sentimento que aqui tento passar é verdadeiro para todas as Classes de Competição. As insatisfações com os resultados na Classe Temática, também foram grandes, entretanto, havia, neste caso, uma justificativa, boa ou má, para a pontuação anotada nas folhas de julgamento. Já é alguma coisa. Entendo serem as sugestões aqui apresentadas, plenamente cabíveis de adoção por todos nós, sob a coordenação da FEBRAF. Até porque não há novidade aqui. Tal prática já foi implantada com sucesso por outras Federações. Por fim, entendo que são práticas simples de serem adotadas, mas representativas do compromisso com o avanço da filatelia brasileira. E afinal não é esse nosso objetivo principal?

    Adotados estes procedimentos, talvez então, ao fim de mais uma exposição, a expresão usada para nomear este artigo possa ser mudada para: Meu Deus! Me livrei da Prata!


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