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Psicologia do Colecionador
por Jairo L. Corso
Não se sabe como começou. Quando o primeiro ser humano resolveu guardar alguns objetos que achava curiosos ou, de alguma maneira, úteis para algum determinado fim. Sabe-se porém, que o ser humano tem uma verdadeira compulsão, fetichismo, obsessão, romantismo e até uma certa dose de loucura para reunir objetos.
Estes "loucos" são carinhosamente chamados de colecionadores - numismatas, filatelistas, conquilhologistas, miniaturistas, loterofilistas, escripofilistas e tantos outros.
Segundo o psicanalista italiano Sérgio Lebovici, o colecionador é um narcisista, que se apropria do objeto, independentemente de seu valor real. Assim como muitas pessoas não encontram valor em uma coleção de selos ou moedas, o que é que você diria da coleção de pulôveres de cachemir da década de 40 da atriz francesa Catherine Deneuve, ou dos objetos "sagrados" da cantora Cher. O quê dizer então da estilista milanesa Biki, que montou uma sala refrigerada em sua casa para conservar chocolates comprados nos mais diversos cantos do mundo. Ou do francês Michel Point que construiu uma pista e um enorme hangar, em seu sítio na Borgonha, só para estacionar e eventualmente dar uma voltinha em um de seus vários aviões de guerra - Mìgs e Mirrages incluídos.
Com uma compulsão por objetos de proporções um pouco menores, a catarinense Lúcia Oliveira, é conhecida pelos amigos e familiares como "a tarada das canetas". Lúcia tem uma única exigência, as canetas devem ser promocionais. E assim como qualquer outro "tarado colecionador", Lúcia não sabe indicar qual a peça mais importante da sua coleção, mas sabe contar a história de cada uma. O gaúcho Jarbas Giuliani Filho, é um aficionado por tudo que se refere ao exército, onde foi oficial. Ele mantém um verdadeiro arsenal militar cuidadosamente preservado na sua loja-museu em Porto Alegre; lá podem ser encontrados restos de granadas, pára-quedas de seda, espadas e muitos outros objetos. Giuliani dedica-se, profissionalmente, a um ramo de colecionismo ainda não muito divulgado no Brasil: o modelismo.
Dizem os colecionadores que o objeto da sua coleção é, na realidade um opcional que não conta com seu valor intrínseco, mas com a unicidade, mormente se pertence a um determinado período histórico ou se pertenceu a uma pessoa importante. Segundo analistas da famosa casa de leilões inglesa Christie's, que de objetos colecionáveis entende muito, "colecionar é sinônimo de amar, e é impossível buscar motivações razoáveis para explicar estas manifestações. Não sendo fácil mesmo buscar motivações válidas para explicar a coleção de radiografias de um médico francês, que em seu arquivo reuniu tíbias e fémures. Ou a coleção de milhares de pares de sapatos da ex-primeira dama das Filipinas, Imelda Marcos ou ainda de uma das maiores coleções do mundo, de latas de cerveja, reunida por um colecionador de Porto Alegre.
O colecionador sério, é uma combinação muito curiosa de instintos, desde os mais delicados até os mais vulgares, e desde os mais espirituais até os mais primitivos, as vezes de um egoísmo grotesco e outras vezes de uma dedicação puríssima ao objeto ou a uma idéia. O colecionador dedica-se a contemplação e ao desenvolvimento da sua atividade "sui generis". É aquela faculdade e, muitas vezes, aquela necessidade, aquela "força maior" de ver determinados objetos de uma maneira precisa, especial, didática, e de relacioná-los e valorizá-los. O colecionador parece às vezes seguir os instintos de um egoísmo vulgar e às vezes parece mover-se dentro de um circulo encantado de idéias de investigação e difere assim mesmo dos dois, tanto como mundo imaginário como de pensamento.
O colecionador é egoísta, muitas vezes astuto e outras tanto agindo sob impulso. Ele procura valores, anda a cata dos mesmos, tem idéias fixas sobre o objeto da sua coleção.
O colecionador não pensa em envergonhar-se do mundo que criou e de sua dedicação ao mesmo. Mesmo que aos olhos de um néscio, não passe de um simples modismo ou distração de alguém que tem dinheiro "prá jogar fora" ou não tem algo melhor para fazer.
Não obstante as opiniões ignorantes sobre as coleções, é necessário notar que os colecionadores são tratados com respeito, em quase todas as situações e em todas as épocas. E posto que ele, como todo tipo humano especial, tem a propensão de querer impor-se no mundo exterior, isto é, de procurar para sua maneira de contemplação e ocupação o reconhecimento e merecimento geral, como coisa valiosa para a humanidade. Ele trata de provar essa verdade instintivamente sentida do colecionar, como uma forma de ocupação e contemplação "sui generis", a qual, por isto mesmo, de qualquer maneira, deve ser medida de maneira especial, na tentativa de justificá-la de forma compreensível a todos aqueles desprovidos da alegria de colecionar.
O colecionador dedicado é um poeta de valores.
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