• REFLEXÕES SOBRE A FILATELIA BRASILEIRA
    por Philippe Jean Damian.

    Há mais de um ano, por razões independentes de nossa vontade, me retirei de minhas atividades profissionais e procurei encontrar novos temas de reflexão, numa tentativa de continuar sendo útil à comunidade à qual estou vinculado. Nos tem sido possível ler, escutar e fazer pequenas pesquisas sobre a filatelia brasileira. Durante esse período assistimos a diversos fatos que achamos necessário comentar.

    Primeiramente, a respeito de um conjunto de reimpressões feitas em 1943 e alienadas por um clube filatélico e cujo comprador não teria conservado o seu estado original, ouvimos de certas pessoas que um "crime filatélico" havia sido cometido. Devemos refletir um pouco e considerar que, mesmo que essas reimpressões tenham sido feitas com as chapas originais (já defeituosas à época), a sua comercialização no mercado filatélico não representa perda significativa para a filatelia brasileira, uma vez que a reprodução de suas folhas foi providenciada pelo citado clube a fim de atender aos interessados no seu estudo. Além disso, o papel utilizado para a feitura dessas reimpressões em 1943 pela Casa da Moeda é de qualidade bem inferior, tipo cartão poroso (mata-borrão). Como caracterizar então (de boa fé) o "crime filatélico?". Quanto ao valor comercial das referidas peças, foi realizada uma criteriosa avaliação quando da sua alienação, porém o seu valor definitivo será ditado pelo mercado, e ainda assim esse valor será fiel sòmente quando um número significativo de peças for vendido no decorrer dos anos. Os primeiros e mais apaixonados compradores pagarão mais e os que souberem esperar pagarão menos. Isto é uma realidade óbvia de nossa economia neoliberal e todas as pessoas bem intencionadas a conhecem.

    Estou muito mais consciente que os verdadeiros "crime filatélicos" são frequentemente cometidos quando intermediários propõe à venda peças filatélicas adulteradas ou manipuladas. Isso é desastroso para a nossa filatelia sendo frequente hoje em dia a pergunta: - voce pode me assegurar que esta peça é autêntica e sem defeitos? No caso das reimpressões de 1943, o mercado receberá peças cuja autenticidade poderá ser garantida, tendo o clube cedente conservado as informações necessárias a essa finalidade. Em minha opinião, o combate sério a tantas falsificações em nosso mercado não terá outra consequência que a revitalização de nossa filatelia, sendo essa luta muito mais difícil e produtiva do que simplesmente afirmar que "a venda das reimpressões de 1943 foi um "crime filatélico". Tenho absoluta convicção que essa expressão se ajustaria com muito maior propriedade ao clima de desunião que se estabeleceu e vem sendo fomentado entre os grupos dirigentes da filatelia brasileira.

    Enquanto isso, um fato da maior importância tem passado despercebido por todos: Enquanto aqui discutimos, a principal coleção brasileira das primeiras emissões (Olhos de Boi) foi vendida no exterior sob a modalidade hipócrita de "Negócio Privado". O fato sòmente foi divulgado por um jornal de circulação restrita, tendo contra ele o articulista se rebelado de maneira veemente. Grandes expoentes da filatelia brasileira - e alguns tinham conhecimento dessa venda - deveriam pelo menos tentar meios de reter no Brasil a única folha existente do Olho de Boi. A sua aquisição por um colecionador do Rio de Janeiro há 4 anos foi alvo de elogios de todos. Hoje deploramos que esse documento de extrema importância para a História Imperial Brasileira tenha ido parar em outro país! Decidida a sua venda por parte do proprietário, se fosse oferecida ao Ministério da Cultura não haveria interêsse na sua aquisição, com recursos próprios ou com a ajuda da iniciativa privada? Não seria o Museu Imperial de Petrópolis o seu local ideal de guarda e exposição? Nesse caso não poderíamos dizer com toda propriedade que um "crime filatélico" foi cometido?



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