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CEM ANOS DEPOIS, A VERDADE INÚTIL
por Rubem Porto Jr.
A coincidência, mais a lógica aplicada por um negociante de selos raros, tornaram possível a solução de um crime de morte, ocorrido cem anos antes. Em sua pequena loja, no bairro londrino de Piccadilly. Peter Jones examinava um pacote de selos recém adquiridos, alguns ainda colados a envelopes. Abrindo um desses envelopes, Jones viu que ele continha recortes de jornais amarelecidos pelo tempo.
O pacote fora-lhe enviado por um correspondente australiano e os recortes falavam do julgamento e na condenação de um tal Richard Canning, que, mas ou menos em 1850, fora acusado do assassinato de sua linda esposa Bettina, acontecido na Ilha das Rosas, em Porto Sydney, Austrália.
Peter Jones, movido pela curiosidade, esquecido momentaneamente dos selos, pôs-se a ler as antigas notícias. Durante todo o julgamento, ficou sabendo, Canning sustentara que, após ter resolvido dar um passeio de barco com Bettina, esta insistira em ficar na ilha das Rosas, enquanto ele continuava a velejar. Várias testemunhas, no entanto, disseram que Canning tinha um gênio terrível tendo brigado várias vezes com a esposa. O motivo, segundo lhes parecia, era ciúme. Canning acreditava que a mulher andava de namoro com um tal de John Ellington. A polícia, porém, não conseguiu localizar Ellington, que havia sumido de Porto Sydney pouco antes do crime. Quanto ao cadáver de Bettina, ele fora encontrado na Ilha, por outros excursionistas, com uma bala na cabeça.
Algumas testemunhas haviam visto Canning desembarcar com a esposa na llha das Rosas, e, mais tarde, velejar sozinho. Mesmo circunstancial, tal prova bastou para Canning ser enviado para a colonia penal da Tasmânia, onde cumpriria prisão perpétua.
O desafio de um indício
Satisfeita sua curiosidade quanto ao crime, Peter Jones passou a examinar os selos. E, de repente, seus olhos deram num envelope dirigido a Sra. Bettina Canning. Dentro dele o colecionador encontrou uma carta. Abriu-a e mergulhou nos segredos de um amor proibido. O autor da carta afirmava seu amor eterno à adorada Bettina, e pedia-lhe um último encontro na Ilha das Rosas, acrescentando que, caso ela não comparecesse, pesar-lhe-ia para sempre na consciência a morte do missivista. O remetente afirmava que o suicídio seria a derradeira prova da sinceridade do seu amor. Diante de tais declarações, Peter Jones pulou as linhas restantes para ler, bem abaixo, a assinatura do autor da carta: John Ellington!
Com essa carta, Peter Jones sentiu-se, de certo modo, dono de elo na cadeia de fatos que resultaram na prisão perpétua de Richard Canning. E pôs-se a coordená-los. Canning afirmara ter deixado Bettina na Ilha das Rosas, atendendo a desejo expresso da esposa. E a carta de John Ellington vinha, cem anos depois, confirmar o que ele havia dito. Ora, era bem possível que Ellington estivesse à espera de Bettina naquela ilha. Nesse local, portanto, devia estar a resposta para o caso. A mulher de Canning deveria ter sido assassinada ou convencida a aceitar um pacto de morte. O assassino poderia ter sido John, e não o marido.
Assim pensando, Peter Jones, o comerciante de selos de Londres, juntou os recortes à carta e os enviou às autoridades da Austrália, acompanhados por uma explicação sobre a sua hipótese.
A verdade tarde demais
Segundo Jones, valia a pena investigar novamente o caso, e foi o que fizeram as autoridades australianas, num trecho não explorado até então da Ilha das Rosas, em especial numa profunda caverna. E descobriram ali o esqueleto de um homem, cujo crânio apresentava nítida perfuração à bala. Perto dele, encontraram um revólver, com duas cápsulas vazias.
John Ellington foi identificado pelos documentos esmaecidos encontrados junto ao esqueleto. A entrada da caverna era estreita demais para que alguém tivesse obrigado Ellington a entrar nela, e nem dava para que arrastassem o corpo para lá. Além disso, quem quer que se desfizesse do cadáver de Ellington daquele jeito, teria feito o mesmo com o de Bettina.
Era evidente, pois, que a mulher fora morta pelo amante, o qual se afastara para se matar, contando que a morte de Bettina iria cair sobre os ombros do marido, o homem que Ellington odiava.
Esse plano de vingança teve pleno êxito, uma vez que Richard Canning cumpriu sentença perpétua por um crime que não cometera. Mas a sua inocência foi finalmente reconhecida, quase um século depois e a cerca de meio mundo de distância, graças a um selo guardado por um filatelista.
Embora, para Canning, já morto, isto pouco importasse.
Extraído da Revista Nacional - Suplemento do Jornal do Comércio - Rio de Janeiro - abril de 1996.
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