ORIGINALIDADE NAS COLEÇÕES TEMÁTICAS
por Ruben Reis Kley.
A manifestação da originalidade nos vários componentes de uma colecção temática depende, fundamentalmente, da capacidade intelectual do coleccionador e sua aptidão para a pesquisa, de sua sensibilidade e da habilidade em salpicar um pouco de poesia e, às vezes, uma dose comedida de fantasia na elaboração do plano, nos títulos e no desenvolvimento do tema. Quanto maior for o conhecimento do tema, maiores facilidades terá o coleccionador para desenvolver pesquisa temática, que propicie elementos fundamentais à elaboração do plano e ao desenvolvimento temático. Ao redigir-se o esboço do plano, inicia-se a pesquisa temática. Quanto mais desenvolvida e intensa ela for, maiores serão as possibilidades de que o plano se amplie e as folhas da colecção se enriqueçam com aspectos originais do tema escolhido. A pesquisa temática é realizada em livros, revistas, jornais e catálogos, especializados ou não: todas as publicações podem constituir-se em fontes de pesquisas temáticas interessantes. As pesquisas temática e filatélica estão intimamente relacionadas. Esta depende, em certo grau, da amplitude e da intensidade daquela. Quanto mais ampla e profunda for a pesquisa temática, maior base propiciará à pesquisa filatélica, que fornecerá os elementos para materializar a ideia original. Uma pesquisa temática bem feita, profunda, leva à descoberta de novos caminhos e, às vezes, fornece subsídios até para uma reformulação geral, com uma carga considerável de originalidade.Havia pouca originalidade em certas colecções gerais e superficiais, muito comuns na década de sessenta, sobre assuntos muito vastos como flores, animais, música, pintura, esportes, entre outros. Nas colecções das duas últimas décadas muito mais elaboradas, a análise profunda do assunto pôde dar ao plano maior dose de originalidade, reflectindo as ideias pessoais do coleccionador. A originalidade não significa, por si, a escolha de um assunto extravagante ou singular mas a realização de um desenvolvimento bem sucedido, baseado numa pesquisa e estudo pessoais. Isto pode resultar na inclusão de elementos que não foram considerados adequados numa primeira análise. A mesma peça filatélica pode ser justificada em uma colecção e em outra, não. A originalidade pode não estar no assunto desenvolvido mas na maneira de elaborá-lo. Uma colecção pode ser original de duas maneiras:
I - Pela maneira de construir um plano diferente sobre assunto bem conhecido e explorado, desenvolvendo-o adequadamente. Para alcançar este resultado, o coleccionador necessita adicionar novos factos à informação já disponível, reclassificando-os e reelaborando-os, de modo a obter um resultado diferente do modelo inicial. Neste plano transparece concepção pessoal do assunto, de maneira a obter um enfoque novo, não habitual nas colecções similares. Para chegar a tal resultado, o coleccionador não se baseia só nos catálogos ou nos estudos já existentes mas pesquisa o material de que necessita na grande massa de emissões. A maioria dos selos e das peças filatélicas seleccionadas, aparentemente, não têm relação com o tema mas, devido ao seu significado ou ao lugar que ocupam na colecção, estabelecem essa ligação directa com o fio condutor do assunto. Este mecanismo peculiar de elaboração demonstra a visão
pessoal do coleccionador no desenvolvimento do tema. Por isto, duas colecções sobre o mesmo tema e com o mesmo título, podem ser muito diferentes. Como exemplo de um plano diferente, sobre assunto frequentemente encontrado em nossas exposições, temos a colecção sobre orquídeas ("Bonita, Charmosa e Convencida") de José Evair Soares de Sã, que chegou a obter medalha de ouro FIP("Philanippon 91"). Esta colecção começou a se desenvolver no início da década de oitenta e surpreendeu agradavelmente não só pelo título mas pelo plano, no qual a orquídea, na primeira pessoa do singular, ressalta todos os principais aspectos de sua biologia e sua relação com os homens. Com o decorrer dos anos, este processo foi copiado em outros assuntos, como elefantes, automóveis, abelhas e, certamente, já perdeu muito do seu impacto inicial. O plano da colecção é o seguinte:
- Introdução;
- Quem sou:
- Composição de minha flor;
- Pétala, Sépala, Labelo, Coluna;
- Como nasci:
- Folclore;
- Onde vivo:
- Posso viver em qualquer lugar;
- Epífitas, terrestres, rupícolas;
- Estufas.
- Não sou parasita.
- Como cresço:
- Minhas folhas - plantas destituídas de folhas;
- Pseudobulbos;
- Diferentes tipos de raízes;
- Minha família.
- Meus híbridos:
- Naturais;
- Artificiais;
- Quem me poliniza:
- Polinização natural (insectos, aves);
- Polinização artificial. (homens).
- Meus estudiosos;
- Exalta-me o poeta;
- Sou também diplomata:
- Flores nacionais;
- Flores simbólicas.
- Usou-me, faz sucesso!
- Meus truques de imagem.
- Aqui sou uma estrela:
- Sociedades e Associações;
- Reuniões, Congressos e Conferências.
- Supérflua? Eu não!
- Indústria e Turismo;
- Nomes de cidades, brasões;
- Curiosidades a meu respeito.
- Meus inimigos.
- Conclusão.
Um outro exemplo é dado pela colecção A Coexistência entre o Homem e as Aves do dinamarquês Leif W. Rasmussen, (medalha de ouro na "Itália 98") cujo plano é o seguinte:
Parte 1 - 0 Homem e as Aves compartilham o mundo e coexistem sob as condições do Homem.
1.1 - A Arca de Noé - o primeiro relatório escrito sobre a coexistência entre o Homem e as Aves.
1.2 - Mas habitamos e compartilhamos o mundo muito mais cedo.
1.3 - E agora, muitas vezes, vivemos muito próximos uns dos outros.
Parte 2 - O Homem sempre tem feito uso da abundância de aves selvagens na Natureza.
2.1 - A procura e caça para alimento.
2.2 - Algumas aves são particularmente apropriadas para a alimentação do Homem.
2.3 - Usando penas de aves selvagens como adorno.
2.4 - Uso do guano.
Parte 3 - Ele domesticou algumas para assegurar fácil acesso ao alimento.
3.1 - O Homem e as Aves possuem habilidades diferentes.
3.2 - O Homem usou sua superioridade intelectual para domesticar algumas aves.
3.3 - A criação de aves domésticas.
3.4 - Aves domésticas usadas na Gastronomia.
3.5 - Produção de ovos e vários usos.
3.6 - Alguns usos das penas de aves domésticas.
Parte 4 - E além disso ele usa algumas para várias outras finalidades.
4.1 - Usando aves de rapina treinadas para a caça.
4.2 - Usando galos para as brigas de galo.
4.3 - Usando camarões para a pesca.
4.4 - Usando pombos-correio.
Parte 5 - Ele caça aves e gosta de observá-las no cativeiro.
5.1 - O desejo para manter as aves.
5.2 - Aves domésticas criadas por razões ornamentais.
5.3 - Caçadores de aves selvagens e comerciantes.
5.4 - Criando as aves de gaiola.
5.5 - Criando aves no zoológico.
Parte 6 - Mas ele gosta também de observá-las na natureza.
6.1 - Observação das aves.
6.2 - Algumas aves têm certas características diferentes.
6.3 - Localidades foram denominadas após as aves terem ali vivido.
Parte 7 - Muitas destas actividades influenciam a vida das aves.
7.1 -Agricultura, silvicultura e outras formas de influência sobre o meio ambiente.
7.2 - Progressos tecnológicos do Homem causam muitos perigos às Aves.
7.3 - Efeitos da introdução de outros seres vivos nos Novos Continentes.
7.4 - A poluição é uma carga pesada.
7.5 - Mas também podemos dar uma mão...
Parte 8 - E ele agora realiza esforços para recriá-las e preservar o equilíbrio da Natureza.
8.1 - Parque naturais e santuários de aves são estabelecidos.
8.2 - Esforços são feitos para a protecção das águas e dos pântanos.
8.3 - Sociedades ornitológicas e Legislação para a Caça.
8.4 - Temos de formar a base de uma futura coexistência entre o Homem e as Aves.
II - Pela escolha e desenvolvimento de um tema novo, ainda não apresentado. Nas modificações em estudo do actual Regulamento Temático, este item passará a designar a Criatividade. Tanto a criatividade quanto a originalidade valerão 5 dos 35 pontos atribuídos ao Tratamento, assim constituído:
- Plano 15 pontos;
- Desenvolvimento 15 pontos;
- Criatividade/Originalidade 5 pontos
Um aspecto positivo destas alterações está em apresentar, em item próprio, a originalidade/criatividade. Após tantos anos em júris internacionais, verificamos que a originalidade - então unicamente considerada - era insuficientemente avaliada por vários jurados. A avaliação correcta deste quesito é um pouco complexa, pois depende, fundamentalmente, da cultura geral e da experiência do jurado, além do conhecimento profundo do tema. Neste caso, o coleccionador começa a partir do nada e tem de identificar até o dados básicos, os quais, no primeiro caso, já estão bem documentados por meio de catálogos, publicações, etc. Como exemplo, pode-se apontar a colecção "Barbas e Bigodes", do belga Marc Braeckman (vermeil grande + Prémio Especial) na "Tembal 83", IV Exposição Mundial de Filatelia Temática, realizada na Basiléia (Suíça), onde representámos o Brasil no Júri. Também mereceu destaque, na época, a colecção "O Além", do italiano Enio Giunchi (medalha de ouro na mesma exposição). Trata-se de uma colecção que, quando foi montada, não havia modelos precedentes de referência, nem catálogos ou mancolistas, mesmo que parciais, sobre selos, obliterações e o material filatélico relacionado com o tema. Neste caso, elaborou-se uma colecção inédita e original, cujo plano é o seguinte:
Primeira Parte: Quem somos? De onde viemos? Para onde vamos?
- A eterna questão;
- A resposta da índia;
- A resposta do Egito;
- A resposta da Grécia e de Roma;
- A Bíblia e o Evangelho;
- O Alcorão;
- A "Divina Comédia" de Dante;
- À procura dos valores perdidos;
- A reencarnação, hoje.
Segunda Parte: As relações com o Além.
- Figuras e poderes do outro mundo;
- A magia: amuletos e talismãs;
- A oração;
- Curas milagrosas;
- Os milagres;
- Vidência, premonição, inspiração;
- Psicometria, telepatia, bilocação;
- Os espíritos;
- O Espiritismo medânico;
- Goethe e o Além;
- Realidade e Ilusão.
As barbas, bigodes e costeletas também constituiram o assunto da coleção Os Pêlos do Rosto do australiano John A Sinfield (medalha de ouro grande na "Itália 98"). Esta participação analisa os pêlos do rosto dos homens - bigodes, costeletas e barbas. Vários tipos e estilos são considerados bem como o seu simbolismo e mudanças periódicas de acordo com a moda volúvel. As personalidades barbadas são agrupadas de acordo com seus tipos de pêlos faciais, ressaltando-se o processo de envelhecimento. São considerados, igualmente, a evolução da navalha e da gilete, os progressos na rotina da lavagem diária e os acessórios e loções para os cuidados dos pêlos do rosto na higiene pessoal. O plano da coleção, muito pormenorizado, é o seguinte:
1 - Classificando os pêlos do rosto.
1.1 - Bigodes
1.2 - Costeletas
1.3 - Barbas
2 - Um resumo dos tipos de pêlos do rosto.
2.1 - Bigodes
2.2 - Costeletas
2.3 - Barbas
3 - Simbolismo da Barba.
3.1 - Histórico:
Homem primitivo
Maturidade, Sabedoria e Força
Fertilidade
O Teatro Grego e Deuses romanos
Cristianismo
3.2 - Religiões:
- Missionários do século XIX
- Chefes de tribos do Pacífico
3.3 - Fábulas e Folclore:
- Papai Noel
3.4 - Considerações práticas:
- Sedução
- Clima
4 - A Moda dos pêlos do rosto através dos tempos.
4.1 - Introdução
4.2 - Civilizações antigas:
- O cavanhaque egípcio
- A barba em camadas da Mesopotâmia
- Culturas da Idade do Bronze
- A barba dos patriarcas hebreus
- A barba crespa dos gregos
- Os gregos tardios
- A barba dos romanos tardios
4.3 - A Idade Média:
- A barba dos vikings
- A igreja
- A Monarquia
4.4 - Os séculos 15 a 17:
- Barbas redondas
- Barba catedral
- O estilo Van Dyck
- Ponta na frente ("Pique devant")
- Espada espanhola
4.5 - O abandono da barba:
- O imposto russo sobre a barba
- Perucas para homens e mulheres
4.6 - O Século 19
- Costeletas
- Costeletas de carneiro
- "Weepers"
- Barba à Francisco José
- Barba olímpica
- Barba em rabo-de-andorinha
- Barba imperial
4.7 - A moda actual:
- O estilo pires
- A barba naval
- À bode
- Barba cheia
- Bigodes de pontas caídas ou de morsa
5 - Barbados famosos.
5.1 - Introdução
- Status e profissões
- Estadistas
- Os militares
- Os artistas
5.2 - Barbas aparadas:
- Cristóvão Colombo
- Rei Carlos I (Romênia)
- Ferdinand von Mueller
- Robert Koch
- Louis Pasteur
- Heinrich von Stephan
- Rei Jorge V
5.3 - Estilos de barbas:
- William Shakespeare
- Rembrandt Van Rijn
- Abel Tasman
- Imperador Luís Napoleão
- Tzar Ferdinando, I
5.4 - Barbas longas:
- Theodor Herá
- Johann Gutenberg
- Leonardo Da Vinci
- Rei Gustav Vasa
- Príncipe Luitpold
5.5 - Bigodes:
- Rei Jorge I
- Charles Chaplin.
- Henry Lawson
5.6 - Envelhecendo graciosamente:
- Dom Pedro II
- Karl. Marx
- Jean-Henri Dunant
- Alexander Graliam. Bell
- Imperador Francisco José
- Gerhard Armaner Hansen
6 - Cuidado dos pêlos do rosto.
6.1 - Meios químicos:
- Loções para o crescimento
- Tingindo a barba
6.2 - Acessórios para barbear
6.3 - A evolução da Navalha:
- Primeiras improvisações
- A navalha recta
- Tosquiadores
- O aparelho de gilete
- A Gillete Company
- A Companhia Francesa Fenix
- Modelos domésticos
- Barbeador eléctrico
- Melhoramentos do aparelho de gilete
- Lâminas descartáveis
6.4 - Lâminas e afiadores de navalhas
6.5 ~ Água e sabão
6.6 - Pincéis e cremes
6.7 - Colónias e loções
6.8 - O barbeiro.
A criatividade pode estar expressa por meio de um plano menos subdividido mas nem por isto menos interessante. É o que se verificou com a colecção Meus Amigos Gordos de Manuel Portocarrero (Portugal), medalha de vermeil grande com Prémio Especial na "Itália98". Médico endocrinologista, passou para a Filatelia, com rara felicidade, suas observações no campo da especialidade que adoptou. Assinala o autor:" Tive sorte de tomar-me um médico especializado em Endocrinologia e Nutrição. Um grande número de pacientes, que atendo em minha prática diária, são obesos. Está certo que a obesidade é uma doença, além disso tem o potencial de facilitar o desenvolvimento de patologias. O problema não é somente físico mas psicológico e leva ou deveria levar a um estreito relacionamento médico-paciente. Portanto, com tempo e reflexão prática, resultados encorajadores podem ser obtidos e, em consequência, levar a uma vida melhor, com crescente bem-estar físico e clínico. Assim é como encaro o problema e o ilustro, tanto quanto possível, num estilo didáctico, por meio dos selos. O sofrimento das pessoas gordas, o porquê e as causas de sua obesidade, sua evolução, conselhos e complicações são examinados. Resumidamente, é dada uma perspectiva geral, mas simples, da obesidade. Esta será uma oportunidade para saber algo das ansiedades e dos problemas de meus amigos gordos". O plano da colecção do Dr. Portocarrero é o seguinte:
1- Eu
Uma vida de estudo e aprendizado
2 - Eles.
- O obeso
- Definição e contexto da obesidade
- Sofrimento
3 -Antigamente.
- Conceito de obesidade no passado
4 -Atualmente.
- Conceitos e necessidades atuais
5 - Porquê?
Razões para o aumento do peso:
a) Hábitos alimentares errados;
b) Vida sedentária;
c) Actividades sociais - Festas.
6 - Atenção.
a) Consequências da obesidade para a saúde;
b) Associação com o tabaco.
7 - Nunca é tarde.
- Como prevenir e tratar a obesidade:
7.1 - Brincando;
- Exercício físico
7.2 - Comendo:
a) Locais e instrumentos do "crime";
b) Os diferentes tipos de alimentos e sua acção.
7.3 - Doendo:
- Tratamento clínico e cirúrgico
8 - Nem oito nem oitenta.
- Ideia de equilíbrio
- Conselhos práticos
9 - Valeu a pena?
a) Resultados positivos do tratamento
b) A necessidade de informar o público
Em princípio, comparando-se os dois mecanismos pelos quais se busca sofisticar o desenvolvimento temático de uma colecção, o primeiro poderá ser até mais desafiador que o segundo. A originalidade aflora mais intensamente nos planos em forma de tese. Neste tipo de plano, o coleccionador estabelece uma proposição e procura demonstrá-la ao longo da colecção. Comporta-se, em termos, como quem defende uma tese universitária. Evidentemente não é necessário que todos estejam de acordo com as conclusões da tese. O que se deve levar em consideração é se a tese está bem demonstrada e se as conclusões são evidentes. O plano em forma de tese demanda, geralmente, muito trabalho pessoal e encerra, consequentemente, apreciável originalidade. As colecções em forma de tese, por isto mesmo, são raríssimas nas exposições, mesmo naquelas de nível mais elevado. Em trinta e três anos de actuação, em júris de todos os níveis, pelos quatro cantos do mundo, só tomámos conhecimento de um plano com estas características: "Evolução e Decadência da Pintura" de Biaggio Mazzeo (São Paulo), "Grande Prémio Nacional" na "Brasiliana 79", III Exposição Mundial de Filatelia Temática. A colecção de Biaggio compreende dois grandes capítulos, conforme se depreende do título: a Ascenção e a Decadência. No primeiro, narra-se o desenvolvimento da Pintura desde os desenhos rupestres até Rembrandt. É uma história linear da Pintura, sem grandes novidades, preparando para o clímax, representado pelo segundo capítulo. Neste está concentrada toda a força da colecção, em que se considera a Pintura Moderna, a partir de certa época, como o factor preponderante da queda da qualidade desta arte. Ao amante da Pintura Moderna esta assertiva será, certamente considerada um sacrilégio mas neste tipo de plano (e no desenvolvimento da colecção), como já vimos, não se considera o teor da tese mas, sim, se foi bem desenvolvida. (Apesar da qualidade tão evidente, tenho encontrado jurados internacionais com dificuldades para avaliá-la correctamente. Recebeu, contudo, medalha de vermeil e "Felicitações do Júri" na "Philanippon 91"). O plano da citada colecção é o seguinte:
EVOLUÇÃO:
- Justificação;
- Apresentação (Síntese da Evolução e da Decadência);
- Deus, o Artista Criador, criou o Universo;
- As origens da Pintura;
- a Pintura chinesa: origem da arte oriental;
- A escrita na arte oriental;
- A milenar pintura japonesa;
- A pintura do Século XIII;
- Giotto inaugura uma nova era para as artes plásticas;
- A Arte do Século XVI;
- O Renascimento;
- A Arte no "Cinquecento";
- Caravaggio, o mestre do claro-escuro;
- Rembrandt, o génio do Século XVII;
- A Arte no Século XVIII;
- Século X: grande diversidade de ideias;
- O Impressionismo;
- Os factores de desenvolvimento das Artes Plásticas.
DECADÊNCIA:
- Primeiros sintomas da decadência;
- Salva-se da borrasca;
- ...Segue o cortejo decadente com o "Fauvismo";
- Um passo a mais para a descida vertiginosa;
- A Pintura chega ao caos com o Cubismo!
- Em plena alienação, aparecem na pintura... a Metafísica, o
Futurismo;
- O mundo fantástico dos loucos;
- Constatação do Vazio;
- Uma denúncia;
- Uma prova irrefutável da decadência!
- A triste confissão;
- Depoimentos;
- Excremento, a inspiração!
- Tela em branco - a obra-prima
- Tela em preto - Preço: 10.000 dólares
- Conclusão: provado o exaurimento das criações artísticas,
resta-nos ainda a fé inquebrantável do surgimento de um novo
Renascimento na Pintura
Os títulos das colecções e dos capítulos têm sua importância e este aspecto é muito pouco estudado. Muito raramente se vê alguma referência a um assunto que reputamos tão interessante.
Sempre defendemos a ideia de que se burilassem os títulos das colecções, procurando diferenciá-las de outras congéneres. Ajudámos, com nossos artigos e palestras, a criar uma "escola brasileira" neste sector, reconhecida internacionalmente. Alguns exemplos: "Um Bacilo ameaçou a Humanidade" (História da Tuberculose), "A Luz e as Trevas" (História da Oftalmologia), "Nas Fronteiras do Nada (História da Psiquiatria), "A Pulsação da Vida" (História da Cardiologia), "Um Passeio pelo Olimpo" (Mitologia Grega), "Rios Prisioneiros, Energia em Liberdade" (Barragens e hidroeléctricas), "Voar é com os Homens" (História da Aviação), entre tantos outros...
Os títulos dos capítulos devem ser elaborados inteligentemente. Podem conter, ainda que parcialmente, certas ideias contidas nos textos, encurtando-os consequentemente. Temos reparado que poucos filatelistas sabem construir belos títulos e, com eles, dar vida à colecção. Se a imaginação não funciona, não custa pesquisá-los nas publicações especializadas, referentes ao tema em estudo, adaptando-os convenientemente. Por exemplo, em uma colecção sobre Insectos, para o capítulo que estuda o Mimetismo, pode-se adoptar o título "A Bela Arte da Sobrevivência", pesquisado num dos artigos da "Enciclopédia Bloch", não mais publicada actualmente. Consideramos esta denominação mais colorida, cheia de vida, do que a simples menção "O Mimetismo". Pode-se, contudo, adoptar uma solução mista, adicionando-se ao título uma pequena frase de carácter explicativo. Exemplificando: "O Mimetismo: a bela arte da sobrevivência". A mesma técnica se poderia empregar, em relação a outros aspectos da biologia, como a polinização. "Polinização: enfeite de flor é semente de vida". Eider de Araújo Rangel, em sua premiadíssima colecção "A Ave, uma História" (Classe de Honra FIP), usou títulos elaborados como "O Passado e o Presente" (As aves extintas, as aves atuais e sua morfologia), "O Ritual do Amor" (atitude nupcial, os ninhos, ovos e filhotes, aves parasitas), "O Mistério das Migrações", "Olhos que vêem longe e perto". Elaborar belos títulos, contudo, não é exclusividade de brasileiro. O português Eduardo Sousa, em sua colecção "O Automóvel", jogando com as palavras "sonho" e "realidade", apresentou títulos sugestivos para os capítulos principais, da seguinte maneira:
O Automóvel - A invenção que mudou o Mundo
1 - Do Sonho à Realidade:
1. 1 - Precursores e Inventores:
1. 1. 1 - As origens do Automóvel;
1. 1.2 - O nascimento do Automóvel.
2 - A concretização do Sonho:
2.1 - Indústria automobilística:
2.1.1 - Na Europa;
2.1.2 - Na América;
2.1.3 - Fusão e associação de Firmas.
2.2 - Indústrias associadas:
2.2.1 - Indústria de Bicicletas;
2.2.2 - Indústria de Pneumáticos;
2.2.3 - Indústria de Motores;
2.2.4 - Indústria de Carrocerias e Chassis;
2.2.5 - Indústria de Equipamentos eléctricos;
2.2.6 - Indústria de Acessórios e Componentes.
3 - A Utilização da Realidade:
3.1 - Classificação dos Veículos:
3.1.1 - Veículos leves;
3.1.2 - Veículos pesados;
3.1.3 - Veículos esportivos;
3.1.4 - Veículos especializados;
3.1.5 - Miniaturas e Brinquedos.
3.2 - Comércio e Divulgação:
3.2.1 - Firmas interligadas;
3.2.2 - Meios publicitários.
4 - A Realidade do Sonho:
4.1 - A Circulação do Automóvel:
4. 1.1 - Nas cidades;
4.1.2 - Nas vias de Comunicação.
4.2 - Consequências do Trânsito:
4.2.1 - Consumo de Energia;
4.2.2 - Poluição do Meio Ambiente;
4.2.3 - As interrupções da circulação;
4.2.4 - Os acidentes.
Geralmente, a originalidade do plano é um pré-requisito para um desenvolvimento temático original. Foi o que vimos com a colecção sobre Orquídeas, toda ela narrada na primeira pessoa do singular. Mais raramente, e está justamente aí seu grande valor, a originalidade resulta na utilização inteligente do material filatélico num capítulo sem maior destaque. Neste casos, a criatividade aliada à pesquisa pessoal, resulta numa agradável inovação. Foi o que se verificou na colecção "A Ave, uma História", em seu último capítulo, "Aves em extinção". Focalizou-se ali a Harpia (Harpia harpyja), um dos maiores gaviões brasileiros, em perigo de extinção. O texto menciona que, se cuidados apropriados não forem tomados, a impressionante ave irá, aos poucos, desaparecendo. Para ilustrar esta ideia foram utilizadas nove variedades do selo comemorativo do Sesquicentenário do Museu Nacional (1968), em que a Harpia está representada . A ilustração da frase vai do desenho perfeito, em duas cores (preto e azul), do selo tipo, até a última variedade, com o selo praticamente em branco (ausência quase total das cores), representando a extinção da ave. Um desenvolvimento inteligente, muito original, autêntico fecho de ouro para uma grande colecção.