• O 10 Réis Inclinado com Papel de Olho de Boi.
    por Roberto C. Puccinelli Jr. (rjunior@yahoo.com.)

    Há alguns anos, a filatelia não me despertava maior interesse. Parecia-me mais um passatempo de quem não tinha muito que fazer, coisa de criança bem comportada ou de aposentado bem de vida.

    Mas, num belo dia, meu filho (então com nove anos) ganhou de presente da tia uma modesta coleção de selos repetidos, e me prontifiquei a ajudá-lo a organizar o material... Pronto! Foi o que bastou. Alguns meses depois já estava mergulhado até o pescoço na filatelia.

    Minha atenção logo se voltou para os selos do Império e, dentre esses, os da série Inclinados. Quanto mais me aprofundava no estudo desses selos, confeccionados há mais de 150 anos, mais admirado ficava com suas características ímpares. Realmente, não é exagero afirmar que essa série é a verdadeira "jóia da coroa" do período imperial brasileiro.

    Por isso, quando soube do lançamento da obra bilíngüe "Inclinados" de Walter G. Taveira (MCBF), tratei logo de pedir um exemplar à Câmara Brasileira de Filatelia, devidamente acompanhado de uma belíssima quadra de 10 réis Inclinados que, por sorte, estava à venda na mesma época. Li o livro inteiro, de ponta a ponta, o que me proporcionou um conhecimento bem mais aprofundado da série, permitindo-me analisar melhor as várias nuances que compõem esses selos.

    Assim é que, ao adquirir recentemente uma série completa dos Inclinados para enriquecer minha coleção, notei que um dos selos apresentava uma característica singular. Era um 10 réis Inclinado, o primeiro selo da série. Visualmente, o seu papel parecia muito distinto dos outros selos de 10 réis Inclinados que possuía; era bem mais espesso, e não translúcido como o papel dos outros selos.

    Lembrei-me então que o Walter Taveira mencionara em sua obra possuir um selo Inclinado de 10 réis, novo, com papel de 60 micra, o papel fino do Olho de Boi. Segundo ele, tratava-se do único exemplar conhecido até então, visto que o padrão desse tipo de selo é o papel fino inglês de 45 micra. Olhei de novo para o meu selo, tão diferente dos seus colegas de classificador... Será?...

    Trata-se de um selo usado, com carimbo laranja (ou vermelho desbotado) no canto inferior direito, com quatro boas margens - a margem esquerda atingindo o outro selo da folha. A figura 1 mostra o selo intrigante:



    Minha primeira providência, naturalmente, foi escrever para o Walter, anexando essa imagem do selo. A resposta dele foi que o selo, de fato, parecia ser de um padrão diferente, mas que eu deveria fazer um teste de espessura. Consegui um micrômetro na faculdade onde dou aula e fiz o teste conforme ele me orientou, isto é, tomando a medida nos quatro cantos brancos, depois de me certificar de que não havia nenhum resto de cola ou reparo no verso. E realmente o selo apresenta-se limpo no verso, sem nenhum vestígio de adesivo ou de reparação.

    Fiz o teste várias vezes, e as medidas sempre ficaram entre 55 e 58 micra. Penso que a medida de 58 micra deve-se ao carimbo, que atinge exatamente o canto inferior direito da peça. Como eu não sabia se o micrômetro que dispunha estava calibrado, levei comigo também um 10 réis comum (papel fino) e fiz a medida de espessura: encontrei exatamente 45 micra, o padrão do papel inglês. Cabe ressaltar que, nessa primeira medição, o selo de papel mais espesso não chegou a ser lavado previamente. O Walter Taveira havia me dado uma aula tão detalhada de como se deve lavar um selo do Império, que acabei ficando com medo. "Não vou lavar nunca esse selo", pensei...

    Um pouco desapontado, já que o selo não apresentava a espessura de 60 micra que esperava, escrevi novamente ao Walter para relatar o resultado. No entanto, para minha agradável surpresa, ele considerou o teste plenamente válido, pois, segundo me explicou, os papéis do Olho de Boi eram feitos à mão, e por isso tinham espessura variável. Para ele, eu estava de posse de um 10 réis Inclinado, com papel fino do Olho de Boi, o segundo exemplar conhecido.

    O aparecimento desse selo esclarecia algumas questões que o Walter havia levantado no seu livro. Ficava, primeiro, descartada a hipótese de o selo dele ser uma prova, pois o meu selo, feito do mesmo papel, havia circulado! Em segundo lugar, como a impressão do meu selo é mais clara que a do selo dele, também ficava demonstrado que a impressão não se deu uma única vez, numa única folha de papel. O Walter acredita, a meu ver com razão, que quando da impressão do valor de 10 réis no ano da sua emissão, em 1846, houve uma mistura dos papéis novos de 45 micra como algumas folhas remanescentes do papel fino amarelado do Olho de Boi, ainda existentes nos estoques da Oficina de Estamparia das Apólices. Mas, quantas dessas folhas remanescentes foram usadas na impressão do 10 réis, não sabemos...

    O Walter pediu-me então que escrevesse um artigo (este mesmo) sobre a descoberta, mas eu achava que antes ainda seria preciso o respaldo de um filatelista de renome, que efetivamente visse o selo em suas mãos e o analisasse. Assim, eu entrei em contato com o Paulo Comelli (MCBF), filatelista que dispensa apresentações. Quando soube que num determinado dia ele faria uma visita relâmpago a São Paulo, prontamente agendei um encontro com ele no próprio aeroporto de Congonhas, para lhe mostrar a peça.

    O Paulo tomou o selo nas mãos (depois de as ter lavado bem) e procurou sentir a espessura com o polegar e o indicador. Sua opinião foi de que o selo, realmente, não era do papel fino usual, mas que, para se saber o tipo exato de papel, seria preciso fazer uma análise da trama do papel.

    Nesse mesmo dia do encontro com o Paulo Comelli, eu havia agendado uma visita ao Peter Meyer, no escritório da Editora RHM. O Peter é outro filatelista que dispensa apresentações, editor do conhecidíssimo catálogo RHM e do extraordinário Catálogo Enciclopédico de Selos & História Postal do Brasil. Desnecessário dizer que eu já havia lido tudo sobre os Inclinados nesse Catálogo Enciclopédico.

    Numa troca anterior de e-mails, o Peter havia dito que ele, em vinte anos, e seu pai, em sessenta e cinco anos, nunca haviam visto um selo Inclinado de 10 réis com papel diferente do papel fino de 45 micra. Por isso, aventou a possibilidade de o selo ter sido recapeado no verso com uma folha de seda.

    Ao chegar no escritório, o Peter analisou o selo com uma espécie de lupa de relojoeiro, que permite visualizar os poros do papel e discernir os pigmentos azuis característicos do papel inglês de 45 micra. Ele detectou porosidades no papel, mas não os pigmentos azuis. A expressão que ele usou ao observar (longamente) o selo com sua lupa foi: "É curioso!...". De qualquer modo, ainda havia a suspeita de que o selo tivesse sido recapeado no verso com uma folha de seda, o que impediria de ver a impressão, como normalmente é possível nos selos comuns. Assim, ficou agendada uma reunião na semana seguinte com o pai do Peter, o senhor Rolf Harald Meyer.

    A figura 2 a seguir mostra o verso do selo de 10 réis em estudo (à esquerda), ao lado do verso de um selo Inclinado normal de 10 réis (à direita) para comparação, escaneados com uma resolução de 2400 dpi. Vê-se facilmente a impressão no verso do selo da direita (comum), mas no selo da esquerda (em estudo) a visualização não é tão nítida, devido à maior espessura do papel:



    Bem, se o Peter Meyer já fez história na filatelia brasileira, o seu pai é simplesmente uma lenda viva. A experiência filatélica do Sr. Rolf Meyer é conhecida e reconhecida em todo o mundo e, portanto, sua opinião teria certamente um peso decisivo na questão. Um dia antes da reunião, numa conversa por telefone, ele havia dito que talvez o selo tivesse sido recapeado, mas que, de qualquer modo achava estranho que alguém se desse ao trabalho de recapear um selo de valor nominal tão baixo como o 10 réis...

    No dia marcado, um sábado, encontrei-me finalmente com o Sr. Meyer no escritório da Editora RHM. Deparei-me com um senhor muito afável, de riso fácil e ótima conversa. Eu, um novato pesquisador, senti-me ali plenamente à vontade diante dele, uma sumidade filatélica. Ele havia levado dois classificadores grandes, repletos de Inclinados, para ajudá-lo na comparação com o meu selo.

    O Sr. Meyer tomou o selo e o examinou com uma lupa de relojoeiro, semelhante à usada pelo Peter, para tentar descobrir os pigmentos azuis característicos do papel inglês de 45 micra. Também nada encontrou. "É um selo bem interessante", disse. Explicou-me que esses pigmentos azuis são fundamentais para se estabelecer se o papel é ou não o fino azulado (ele prefere a denominação "fino acinzentado"). Para demonstrar, ele tomou um selo de 10 réis Inclinado comum e me mostrou como discernir os pigmentos azuis com ajuda da lupa.

    Em seguida, o Sr. Meyer tomou o selo e o mergulhou na água já colocada num filigranoscópio por um seu ajudante. Naturalmente, ele não me perguntou antes se eu queria ou não dar um banho no selo; apenas o tomou e mergulhou na água, pois nada sabia da minha hidrofobia filatélica que o Walter tinha causado. Feito isso, ficamos mais de uma hora conversando sobre diversos assuntos, enquanto esperávamos para ver se algum recapeamento descolava do selo. Nada aconteceu. Nesse ponto, o Sr. Meyer afirmou que o selo não era do papel fino de 45 micra. No entanto, disse que talvez pudesse ser do papel fino amarelado, eventualmente mais grosso. Para tirar a dúvida, olhou o verso do selo (quando já estava seco) com os olhos quase tangenciando a superfície. Segundo me disse, a impressão do 10 réis em papel fino praticamente não deixa marca em relevo no verso; mas a impressão num papel de olho de boi, ao contrário, deixa essa marca em relevo. Pois ele encontrou a marca em relevo no verso!

    Por fim, ao consultar os tipo de papel dos Olhos de Boi no Catálogo Enciclopédico, verificou que o papel fino apresentava uma espessura variando de 50 a 60 micra. Então, ele disse textualmente: "Trata-se do papel fino do Olho de Boi, não resta dúvida!".

    Apenas ainda me aconselhou a medir novamente a espessura da peça, para concluir o teste. Como naquele momento ele não dispunha de micrômetro, retornei à faculdade onde havia feito anteriormente a medição da espessura, e repeti o teste com o selo analisado e também com um outro10 réis comum. A diferença de espessura de 10 micra entre os dois tipos de selo se manteve, comprovando assim a descoberta.

    Bem, para mim, essa experiência serviu para reforçar ainda mais meu interesse na série dos Inclinados e na filatelia de um modo geral. Dizem que esse tipo de estudo faz parte da "filatelia avançada", mas eu creio que é preciso fazer ainda uma diferenciação. Os estudos da filatelia avançada podem abranger todas as eras, inclusive a contemporânea, como bem demonstram os artigos dessa revista. Mas o estudo dos selos do século retrasado (!) é um trabalho de verdadeira arqueologia, com seus próprios sítios e descobertas inusitadas.

    O prefixo "archeo" da palavra arqueologia deriva do grego archaio, que significa antigo, primitivo. Assim, as pesquisas levadas a cabo nos selos do Império do Brasil e nos primeiros anos da República são realmente "arqueofilatelia", e nós, entusiastas dessa ciência fascinante, os "arqueofilatelistas". Oxalá! surjam mais e mais integrantes dessa ciência, formados todos os anos em suas próprias casas, nas horas que podem se dedicar a ela, com suas pinças, lupas, micrômetros e... intuição.



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