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A HISTORIA DOS SELOS MISSIONÁRIOS DE GRINNEL: FALSOS OU VERDADEIROS?
por Por Rob Haeseler (Tradução e adaptação: Rubem Porto Jr.)
Uma das mais instigantes batalhas da história dos selos está sendo travada neste momento na Sociedade Filatélica Real em Londres. Em debate está a legitimidade de 58 selos relacionados à primeira emissão do reino de Havaí, selos conhecidos como "Missionários" havaianos, emitidos em 1851. Em um fantástico achado, localizado em 1918 pelo Sr. Grinnell em Los Angeles, tem-se um conjunto de 5 selos desta emissão, sendo um de 5¢ e quatro de 2¢. Juntos, correspondem à taxa de 13¢ para cartas enviadas das Ilhas Havaianas para a Costa Oriental dos Estados Unidos. Não são conhecidas outras combinações deste tipo para os selos desta emissão.
Anteriormente tido como uma falsificação, a partir de expertização realizada em 1922, os selo de Grinnells foram levados agora ao comitê especialista da Sociedade Filatélica Real em Londres com um conjunto de novas informações que pretende apoiar as evidências de que o conjunto se trata de peças autênticas. Descendentes de duas famílias da Califórnia, voaram para Londres em fins de fevereiro de 2002 e submeteram 55 selos ao exame do comitê especialista da entidade, junto com uma grande quantidade de documentos que apoiam a sua reinvidicação. O comitê realizou a primeira reunião para cuidar do assunto em 6 de março e reunirá-se novamente nos dias 17 de abril, 29 de maio e 10 de julho.
Unidos à família de Grinnell tem-se a família Shattuck. Os herdeiros certamente terão uma fortuna em mãos, caso o comitê certificar que os selos são genuínos. Os selos -popularmente chamados de Grinnells- foram declarados falsos em 1922, em uma tentativa de expertização realizada em Los Angeles, com as famílias à época sendo desacreditadas. O curioso de toda esta polêmica é que não houve nenhum esforço para a aquisição dos fatos concretos na ocasião, escreveu George W. Linn em 1951. Desde então, gerações de Grinnells e Shattucks têm trabalhado para restabelecer a reputação de seus antepassados construindo um arquivo irrefutável de evidências da qualidade dos selos.
O assunto é emocionante desde 1919 quando os selos apareceram no mercado. O fundador do Jornal Filatélico "Linn's Stamps", George W. Linn, era o principal pesquisador dos selos Grinnell e dos Missionários havaianos de uma forma geral e se pronunciou pela autenticidade do material em 1952. Esta não é a primeira vez que os Grinnells vão até a Real Sociedade Filatélica. George Linn descobriu em suas pesquisas que um grupo destes selos já tinha sido submetido em novembro de 1951 à exame: a decisão à época, apresentada após dois meses de estudos foi feita baseada em uma curta declaração de que os selos eram falsificações. Os especialistas à época não deram nenhuma razão para a decisão tomada e não ofereceram nenhuma evidência que sustentasse a decisão.
Haviam pelo menos 71 Grinnells no achado original. Destes, 58 continuam com as famílias (26 com os herdeiros de Grinnell e 32 com os herdeiros de Shattuck). Treze selos foram vendidos ou estão perdidos. De posse das famílias estão 23 exemplares de uma das maiores raridades filatélicas do mundo: o 2¢ de Missionário havaiano (Scott 1), novos e usados e também em pares. O Catálogo Especializado de Selos dos Estados Unidos, Scott 2002, apresenta as seguintes cotações para os selos Missionários de 2¢: US$ 660.000 para selos novos e US$ 200.000 para selos usados. Entre os 197 Missionários havaianos que são reconhecidos como genuínos em um censo apresentado em 1995 é listado somente um exemplar novo do Missionário de 2¢. O censo registra 14 exemplares usados, incluindo o que se apresenta sobre fragmento, e que foi vendido em leilão em 1995 por US$ 2.019.000.
Cerca de 30 anos depois que o Grinnells foram declarados falsos em uma sala de um tribunal de Los Angeles, George Linn se tornou o principal pesquisador do material. Linn acreditava que era mais qualificado do que os peritos designados para examinar os selos. Dizia ele: "O ponto principal . . . é que os selos ou são bons ou não são bons. Não há nenhum Missionário havaiano, honesto, em condições similares e que possa ser usado para comparação. Todas os selos reconhecidos como genuínos já sofreram algum tipo de reparo e ninguém sabe exatamente como eles se pareciam quando emitidos". No dia 8 de dezembro de 1952, Linn declarou publicamente que os Grinnells seriam tão genuínos quanto qualquer outro Missionário conhecido. Entretanto para escapar de ser processado pelo negociante John Klemann em 1954, que comprou os selos de Grinnell através de uma transação privada e depois o processou para receber de volta o dinheiro pago pelo material, Linn inverteu sua posição e declarou que eles eram falsos. Porque tantos problemas com este selo? A combinação de goma ruim com um papel macio, na qual os selos foram impressos, faz com que haja um grande número de exemplares defeituosos. Os selos foram impressos nos escritórios de "O Polinésio" o jornal de Honolulu, com tipos e ornamentos fixados à mão. Foram impressos dois a dois, colocados lado a lado. "Eles poderiam ter sido chamados Selos Whaling pois eram usados mais comumente pelos homens das várias frotas de whaling, do que pelos missionários presentes em terras havaianas na época, escreveu Linn.
Além do selo de 2¢, os Missionários foram emitidos em dois outros valores: 5¢ e 13¢ (Scott 2 e 3). O selo de 2¢ pagava a taxa de remessa de um jornal para os Estados Unidos, ou cobria a taxa de transporte de cartas paga aos capitães que a transportavam. O selo de 5¢ pagava a taxa postal havaiana para o São Francisco, e o selo de 13¢ pagava a combinação da taxa postal havaiana de 5¢, mais a taxa de transporte de 2¢ e mais a taxa postal postal norte-americana transcontinental, para levar cartas do São Francisco para a Costa Oriental de 6¢. O Grinnell sobre fragmento apresenta um extraordinário conjunto de um selo de 5¢ e quatro selos de 2¢. Juntos, eles completam o porte de 13¢ pagos por carta endereçada à Costa Oriental dos Estados Unidos.
Entre os Grinnells novos e usados submetidos ao comitê especialista da Sociedade Filatélica Real encontram-se 14 exemplares do selo de 5¢ e dezenove exemplares do selo de 13¢. O Scott avalia o selo de 5¢ em US$ 45.000 para selos novos e em US$ 25.000 para selos usados. O selo de 13¢, Scott 3, é avaliado em US$ 22.500 para selos novos e em US$ 17.500 para selos usados. O conjunto mais original e mais conhecido dos selos Missionários tidos como autêncticos é o compopsto por 18 exemplares da coleção de Thomas Tapling. A coleção Tapling encontra-se hoje na Biblioteca britânica. É esperado que o comitê especialista use a coleção de Tapling como uma ferramenta de consulta durante a avaliação dos Grinnells.
George H. Grinnell (1875-1949) era um nativo de Massachusetts. Em 1918, morava em Los Angeles. Shattuck também residia em Los Angeles e também nascido em Massachusetts. Um dia, Grinnell, em visita ao amigo Shattuck, lhe perguntou se ele tinha alguns selos velhos ou mesmo cartas guardadas em algum canto. "Shattuck parecia ter pouca consideração para tais coisas e a resposta dele me impressionou já que ele considerava a atividade de colecionar selos coisa de criança" recordou Grinnell. "Eu lhe expliquei que eu colecionava selos desde minha juventude e pensava que ele poderia ter entre suas coisas alguns selos velhos ou cartas antigas de seus pais". Ele então exclamou: "Sim, George. Eu tenho!" O velho homem apareceu então com um livro de sermões onde os selos Missionários eram promiscuamante presos aqui e ali em páginas diferentes, escreveu Grinnell. "Eu lhe perguntei onde ele havia adquirido aqueles selos, e ele disse: Eles estavam entre o coisas de minha mãe quando ela morreu e eu sempre os mantive assim". Eu lhe perguntei quando ela morreu e ele disse que ela havia morrido quando ele era ainda menino em 1856". Grinnell teria pago cerca de US$ 5 a Shattuck por todo o lote. Shattuck morreu pouco depois.
A notícia da descoberta chegou até ao negociante de selos John Klemann, de Nova Iorque: um magnífico lote de Missionários tinha aparecido em Los Angeles em novembro de 1919. Ele partiu imediatamente para a Califórnia onde, no dia 3 de dezembro, ele acertou a compra dos selos de Grinnell, sendo oito deles defeituosos, por US$ 65.000, uma soma enorme para a época. Naquele momento, o Scott avaliava cada exemplar de 2¢ (usado, já que só assim eram eles conhecidos) em US$ 5.000.
Klemann, que se colocou como uma autoridade nos selos Missionários, teve o apoio financeiro de um investidor de Wall Street chamado Alfred Caspary, colecionador, possuidor de grandes peças, e também um investidor. W.H. Wilcox testemunhou a troca entre Grinnell e Klemann realizada no Los Angeles Trust e deu seu testemunho: "Sr. Klemann disse ao Sr. Grinnell e ao Sr. Wood (um intermediário) que ele queria que eles prometessem manter sigilo sobre aquela transação, nada devendo ser dito sobre ela nos próximos 30 dias. Ele esperava ganhar um tempo mínimo para vender o material quando voltasse à Nova Iorque. Temia ele, que os demais negociantes de selos pudessem chamar o conjunto de falsos para atrapalhar seus negócios". De volta a Nova Iorque em 13 de dezembro, Klemann mostrou os selos a Caspary que selecionou 11 selos que corresponderiam a sua parte no negócio. Segundo publicou Harry Lindquist em julho de 1922, "O Sr. Caspary não fez nada com os selos até tarde de domingo, quando ele os comparou com os selos genuínos de sua coleção e achou diferenças que depressa o convenceram que os selos eram falsificações".
Na manhã de segunda-feira o Sr. Klemann foi chamado à casa de Caspary e lá fez sua primeira comparação dos selos comprados com os originais de Caspary. As diferenças eram tão marcantes que não houve nehuma dúvida sobre a natureza falsa dos selos de Grinnell. "Klemann e Caspary procuraram imediatamnete seus advogados que entraram em contato com um representante em Los Angeles que, por sua vez, procedeu a processo jurídico que bloqueou os fundos e as propriedades de Grinnell". Assim começou o processo civil empreendido por Klemann contra Grinnell para recuperar o dinheiro pago pelo material. O termo processual iniciou-se em 31 de maio de 1922 no Superior Tribunal de Los Angeles e terminou em 29 de junho depois de apenas 14 dias. Não houve nenhum júri.
Manuel Galvez, negociante de selos espanhol, segundo notícias bancado por Caspary, testemunhou como especialista, a favor de Klemann. "Eu tive sucesso ao provar, no tribunal, minha descoberta de que as falsificações tinham sido produzidas por fotogravura, e não por processo tipográfico" disse Galvez a época. "Como o processo de fotogravura não foi aperfeiçoado antes dos anos cinquenta do século 19. . . os selos de Grinnell só poderiam ter sido impressos em data muito posterior e não poderiam ser genuínos". Diferenças no tipo dos numerais no Grinnells, a tinta na qual foram impressos os selos, bem como os cancelamentos a eles aplicados, tudo foi motivo de disputa no tribunal. A viúva de Shattuck deu um testemunho que prejudicou a Grinnell. Em delicado estado de saúde, ela testemunhou de sua própria casa. Ela disse que as posses herdadas pelo marido da parte de sua mãe, tinham sido destruída em um incêndio muitos anos antes. Grinnell não chamou qualquer perito para testemunhar a seu favor. Confiou no conselho de seu advogado de que eles predominariam provando que os selos tinham sido vendidos "no estado, sem garantias" a Klemann. O Juíz John Perry Wood, entretanto, rejeitou este argumento. Ele entendeu que os selos eram falsos, e assumiu que Klemann tinha cometido um "erro" os comprando. Ordenou, então a Grinnell, que reembolssasse o dinheiro a Klemann, além de mais 7% de multa, tendo ainda que custear as taxas legais referentes ao advogado do negociante de selos, bem como os custos do tribunal. Os selos Missionários de Grinnell haviam sido enviados ao FBI para investigação depois que Caspary os denunciou como falsos. Depois da decisão do Juíz eles retornaram as mãos de Grinnell. Grinnell disse que George Hazen, agente especial FBI em Los Angeles, falou ao seu advogado que a investigação feita elo órgão "não revelou uma única evidência de que os selos não fossem genuínos".
Passado algum tempo esrabeleceu-se que as posses que Shattuck herdou de sua mãe, Sra. Hannah Child Shattuck, não tinham sido destruídas em nenhum incêncdio. Grinnell pôde estabelecer ainda que Hannah Shattuck teve uma amiga de infância, Ursula Newell Emerson, que foi morar no Havaí como uma missionária. As duas mulheres tinham se correspondido por muitos anos. Acrescente-se ainda que a Sra. Emerson teve um filho que trabalhou como agente postal no Havaí no tempo em que os Missionários foram impressos. Os filhos de Shattuck declararam que o testemunho de sua mãe sobre o eventual incêndio não era verdadeiro. George Grinnell cedeu, aproximadamente, a metade da coleção dele de selos Missionários para os descendentes de Charles B. Shattuck, no dia 15 de julho de 1927, quatro anos após as declarações da família Shattuck terem sido retificadas. Depois do ocorrido, a vida de Grinnell mudou dramaticamente. Ele passou a ser visto como um falsificador e como uma pessoa desonesta. Ele morreu em Los Angeles não tendo podido superar os ataques da imprensa e as opiniões negativas que o impediram convencer as pessoas a estudar os seus selos com objetividade e interesse acadêmico, pelos peritos filatélicos. Os interesses de Grinnell não foram limitados a selos. Ele era perito de xadrez e naturalista, como também curador do Museu Sudoeste em Pasadena.
Hoje, os interesses familiares de Grinnell são representados por sua neta Carol e seu marido. Vincent. Patrick Culhane, um descendente de Shattuck, representa os interesses familiares do clã Shattuck. Culhane confirma que ele levou 29 dos 32 Missionários da família Shattuck para serem examinados na Real Sociedade Filatélica de Londres. "Eu retive três selos - um de cada valor - como uma precaução de segurança. Os herdeiros são responsáveis por vários avanços científicos, impossíveis de serem obtidos à época de George Grinnell. Foram estudadas e analisadaos dados relativos a tipografia, papel, tinta, carimbos postais e proveniência.
Fazendo um comentário sobre a opinião emitida em 1951 pela mesma Sociedade, que agora volta a examinar os selos, de que eles constituiam fraude, Linn disse: "Eu não tenho nenhuma razão para acreditar que qualquer sócio do comitê especialista da Real Sociedade Filatélica é mais capaz que eu para julgar este selo. Eu sei que eu tenho mais dados e informações sobre estes selos do que o comitê sempre teve".
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