• Inclinado 60 réis Tipo III
    por Anna Maria Jacques (annamj@terra.com.br)

    Até o dia de hoje conhecemos 2 tipos de Inclinado 60 réis, identificados em abril de 1939 pelo filatelista paulista J.Fred Emerson residente nos EUA em artigo na revista "The American Philatelist" e muito bem ilustrados nos Catálogos RHM como nº 6.

    - O Tipo-I que juntamente com outro modelo compõe a chapa mista (1º modelo) com 153 selos sendo 72 selos do Tipo-I e 81 do outro Tipo, intercalando uma fileira vertical de cada modelo, esta chapa caracteriza-se por uma discreta linha pontilhada entre os selos no sentido horizontal sempre abaixo do exemplar Tipo-I e acima do exemplar do outro Tipo. Esta chapa ficou pronta em 02 de março de 1844 (*).

    - O Tipo-II que forma a chapa simples (2º modelo) de 153 selos somente com este Tipo, esta chapa não tem a linha pontilhada entre os selos. Esta chapa ficou pronta no final do ano de 1844.

    - Em dezembro de 2004 adquiri um lote de Inclinados onde um selo de 60 réis me chamou a atenção, sua impressão era forte, tinta negra, papel espesso remanescente dos Olho de Boi, comparando-o com meus outros 60 réis todos Tipo-II, suas linhas se destacavam, examinei e reexaminei por diversas vezes e sempre chegava a conclusão que era Tipo-II mas instintivamente percebia que algo o diferenciava dos demais, sem saber indicar exatamente o quê. Passaram-se alguns dias quando surgiu a idéia que poderia se tratar de um Tipo ainda não classificado. Imediatamente examinei-o com esta possibilidade, nesta ocasião constatei que apesar da semelhança do Tipo-II até então conhecido, haviam 5 pequenos pontos divergentes. Em conversa com familiares, uns acreditavam em uma nova descoberta, outros me perguntavam porque então já não havia sido descoberta esta nova variante, não era possível que após tanto tempo ninguém o tivesse percebido. Inicialmente cheguei a pensar que estava equivocada. Passaram-se alguns meses enquanto adquiria outros exemplares e intensificava meus estudos, até convencer a mim e aos meus que realmente se tratava de um Novo Tipo com Matriz ou Cunho próprio que dava origem ao Tipo-II. O passo seguinte era me certificar que se tratava de uma descoberta inédita, para não cometer um sacrilégio filatélico recorri aos especialistas mais renomados da atualidade no assunto, entre eles Walter Gonçalves Taveira, Everaldo Nigro dos Santos e Reinaldo Jacob a quem devo um grande apoio sempre demonstrado.

    Diferenças entre os Tipo-II e Tipo-III

    *** Para não gerar confusão, devo esclarecer que a numeração dada aos Tipos não tem relação com a ordem cronológica da abertura de suas Matrizes e sim diretamente relacionadas com a ordem de suas descobertas.
    Todos os indícios que identificam o Tipo-II também identificam o Tipo-III, com as seguintes detalhes;
    - 1ª- O contorno interno da haste do "6", no T-II é levemente mais agudo que no T-III.
    - 2ª- A ponta da haste do "6" à direita, no T-II tem mais sombra e menos branco. No T-III é o inverso, tem menos sombra e mais branco. Por ser o mesmo Cunho básico as dimensões somando o branco + a sombra são exatamente iguais em ambos os tipos.
    - 3ª, 4ª e 5ª- Aro interno do "6", no T-II a sombra (metade à esquerda) foi levemente alargada e no alto à esquerda (10hs) surge um bico c/ aparência de um canto, no mesmo aro interno agora no contorno (metade à direita) dois novos detalhes em (1h e 4hs). No T-III estas saliências não existem.
    - Não há diferenças no numeral "O" e no guillochis.



    - Lembro que estas alterações permaneceram incógnitas por mais de 160 anos, passando desapercebida de muitos estudiosos devido à minúcia e leveza de suas dimensões, portanto usem boas lentes ou façam ampliações digitais.
    - Quem tiver condições de observar um Par Vertical da Chapa Mista (obrigatoriamente terá o Tipo-I ) juntamente com um Par Vertical da Chapa Simples (qualquer composição desta chapa não possui o Tipo-I), com os dois pares juntos sugiro isolarem o Tipo-I e compararem os outros 3 selos, aí a diferença saltará aos olhos.
    Encontrei este Novo Tipo-III em todas as formações juntamente com o Tipo-I que examinei e somente c/ o T-I, desde par vertical alternando as posições (tanto em papel fino como espesso), trinca vertical c/ o T-I no centro (papel espesso) quadras e blocos maiores da chapa mista (papel espesso), também encontrei um Par Horizontal do Novo Tipo-III, seguindo a lógica deve ser tão Raro quanto o Par Horizontal Tipo-I. Como não poderia deixar de ser, encontrei selos isolados Tipo-III com a discreta linha pontilhada acima deste em ambos os papeis. Nunca encontrei um Par Vertical, trinca, quadra ou qualquer outra formação somente c/ o Novo Tipo-III . Nunca encontrei o Tipo-I em conjunto com o Tipo-II da chapa simples. Nunca encontrei este Novo Tipo-III em conjunto com o Tipo-II da chapa simples. Todas as composições da chapa simples que examinei eram somente c/ o Tipo-II.

    Gravura à Talho Doce

    Para melhor entendimento da criação deste Novo Tipo-III, sugiro relembrar como era o processo de abertura de matrizes pela técnica de "Gravura à Talho Doce", quem e quantos eram os gravadores e por final como eram montadas as chapas, para que possamos compreender a mecânica do sistema e a criação de um 3º tipo que não foi acidental e não se trata de um retoque de chapa pois o Novo Tipo-III possui Matriz ou Cunho Próprio.

    Os processos de Gravura e confecção de Chapas assim como o maquinário foram os mesmos utilizados nas 3 primeiras séries Numerais do Império e possivelmente uma ou outra técnica no manuseio destas ferramentas tenham sido desenvolvidas e aprimoradas devida à prática. Penso que o conjunto destas informações nos levam a entender melhor a criação da Matriz do selo pois no meu caso não compreendia como este processo de transferências de gravuras poderiam funcionar, devido a falta de literatura específica ou pelo menos fora de meu alcance. A maquina de gravar a torno ou maquina de bordar (**) funciona a base de gravação de elipses e círculos, jamais gravaria um quadro retangular com cantos côncavos (moldura) e mesmo no caso dos Olho de Boi a moldura e a margem teriam de ser gravadas o inverso (alto relevo) da gravação feita pela maquina a torno. A partir daí, comecei a desenvolver um raciocínio de como seria realmente todo o processo até a impressão do selo propriamente dito.

    Nas próximas linhas posso cometer algum equivoco mas em síntese descrevo como imagino deveria ser este processo de "Gravação a Talho Doce" para que funcionasse corretamente, seguindo uma lógica.

    - 1º etapa; Gravava-se em um pequeno bloco de aço mole (ou macio), com a face já no formato e dimensões que viria a ser o fundo do selo, o guillochis, aquela parte rendada porem sem a moldura, um retângulo medindo 21,4-21,6mm X 15,8-16,2mm com os cantos côncavos. Pela variação das medidas encontradas constato que o desenho da renda era o mesmo para todas os Inclinados, mas não o mesmo guillochis. Muito provavelmente este desenho era proporcionado por um padrão onde uma peça circular denteada gira dentro de um círculo também denteado, que em movimento riscaria o bloco de aço mole com um buril. O sistema muito semelhante a estas réguas de desenho geométrico c/ várias bitolas onde se coloca o lápis e ao girar várias vezes produz um desenho. Creio que existiram no mínimo 2 exemplares de guillochis. Ao término do preparo da gravura da renda, esta peça de aço mole deveria ser endurecida através de tempera do aço e serviria como um punção. Até aqui a gravação era feita à maquina, a partir desta etapa todos os detalhes da gravura seriam acrescentados à mão pelo gravador. *** Creio que o guillochis era confeccionado em 3 ou 4 etapas, trocando-se as ditos círculos denteados ou mudando a regulagem da maquina a torno e assim extraindo diferentes efeitos dando a impressão de movimento ondulatório, matéria para outro estudo ***.

    - 2º etapa; Sob forte pressão, transfere-se a gravura deste punção de aço temperado para um bloco de aço mole e agora sim, com o auxilio de um buril risca-se a moldura. Sobre este guillochis agora c/ moldura, gravava-se à mão com uma ferramenta própria o contorno dos numerais e as sombras destes em negativo (como a imagem do selo vista pelo verso) formando assim um sulco de fundo liso de profundidade micrométrica, permanecendo o restante da área do numeral c/ os detalhes do fundo do guillochis. Imagino que era utilizado um espelho em frente ao bloco de aço mole para a execução deste trabalho, onde o gravador orientava-se através do reflexo para conferir o burilamento no bloco. Findo esta etapa, esta peça de aço mole agora c/ guillochis, moldura, contorno e sombra dos numerais, tudo em negativo, deveria ser endurecida através de tempera do aço. Temos aqui o contra-cunho. (*** neste exato ponto creio tenha surgido o 3º contra-cunho, dando origem ao Tipo-II ***).

    - 3º etapa; Sob forte pressão, transfere-se a gravura do contra-cunho para um Cilindro de aço mole, aqui os numerais (a parte branca no selo impresso) eram acrescentados formando um sulco, surgindo agora uma gravura definitiva em positivo como se fosse um exemplar do selo em metal. Findo esta etapa, o cilindro de aço mole agora c/ guillochis, moldura, numerais, sombras e contornos tudo em positivo, este Cilindro era endurecido através de tempera do aço. Temos agora a Matriz ou Cunho em aço temperado em um Rolo-transferidor.

    - 4º etapa; Preparo das chapas – Sob forte pressão, transfere-se a gravura da Matriz ou Cunho para uma chapa de cobre, no caso dos Inclinados 153 vezes, com a finalidade de inverter as imagens. Devido as diferentes resistências dos metais empregados, a Matriz tinha uma vida útil bastante longa, não sendo o caso das chapas de cobre que com o uso repetido se desgastava e tinha que ser substituída integralmente, aproveitando-se somente o metal.

    - 5º etapa; Impressão do selo – A chapa de cobre é curvada e encaixa em um cilindro, creio que a tinta era passada na chapa manualmente com o uso de uma espátula retirando-se o excesso, o que penetrava nos sulcos da gravura era transportado para o papel ao girar o cilindro. O papel também era colocado manualmente folha por folha.

    Creio que na confecção dos "Olho-de-Boi" o processo tenha sido exatamente o mesmo sendo as linhas do quadro ou margem (não confundir com moldura) adicionadas diretamente na chapa de cobre, selo por selo.

    Os Gravadores, as Matrizes e as Chapas

    Na época era provedor da Casa da Moeda o Sr. Camillo João de Valderato e os gravadores eram Carlos Custódio de Azevedo e Quintino José de Faria. Penso que criados os desenhos dos Inclinados, muito provavelmente pelo Sr. provedor, inicialmente foi distribuída uma tarefa ao qual cada um dos gravadores teria que abrir um cunho de cada um dos 3 valores, a saber 30, 60 e 90 réis. Concluo isto pois existem basicamente 2 tipos distintos de cada valor (o 90rs Tipo-IIa é uma pequena variante do T-II), das possibilidades que imaginei, esta seria a mais sensata, mas no momento não é relevante pois se trata de pura especulação, sem meios de comprovar.

    Como o objetivo de meu estudo é direcionado a uma Nova Matriz de 60 réis, vamos aos argumentos:
    - Creio que o Tipo-I permaneceu inalterado e utilizado somente na chapa mista, como conhecemos até agora.
    - O outro Tipo que compõe a chapa mista juntamente c/ o Tipo-I, é na realidade é o NOVO TIPO-III. Ambos os Tipos foram utilizados somente na chapa mista (1º modelo).
    - O Tipo-II até então conhecido e que sozinho forma a 2ª chapa, permanece inalterado, porem deriva do Novo Tipo-III aqui anunciado.
    - Creio que na montagem da chapa mista, cada um dos gravadores colocou sua Matriz. Fica evidente que era esta a vontade dos gravadores pois segue-se uma ordem categórica nesta montagem.
    - A chapa mista foi utilizada exclusivamente por quase todo o restante do ano de 1844, até praticamente o fim dos papéis remanescentes dos Olho-de-Boi. A 2ª chapa entraria em operação no final do ano de 1844 ou começo de 1845 quando chegou ao Brasil a remessa do Papel Fino importado da Inglaterra, uma vez que quase a totalidade dos 60 réis em Papel Grosso são o Tipo I e na realidade o Tipo III, separadamente são escassos mas em pares são raros. Assim se explica a raridade do Tipo-I em Papel Fino e o Tipo-II em Papel remanescente dos Olho-de Boi talvez nem exista ou seja peça única (como o 90 réis T-IIa e o 30 réis T-II em papel remanescente).

    - Portanto o 60 réis Tipo II no meu entender deriva do Tipo III com 5 pequenas alterações básicas e somente no numeral "6", devido às mínimas modificações creio que elas foram introduzidas diretamente no Contra-cunho do Tipo III (2º passo) através da retirada de minúsculas quantidades de aço, devemos lembrar que o aço deste bloco já estava temperado e sua dureza não permitia grandes modificações, assim criou-se uma nova Matriz, a Matriz do 60 réis Inclinado Tipo II, conforme imagens abaixo. Seguindo-se os passos subsequentes ao mesmo processo de elaboração até a confecção da Chapa.

    Os motivos que levaram os gravadores a este ato, são inexplicáveis, possivelmente para marcar a transição dos papéis.

    Após a conclusão deste estudo, levantei a seguinte hipótese;
    Se existem 3 tipos de Inclinados 90 réis e agora 3 tipos de Inclinados 60 réis, possivelmente haveria também 3 tipos de Inclinados 30 réis!
    Com as mesmas lógicas seguidas nos estudos que me levaram ao 60 réis T-III, creio que o Inclinado 30 réis Tipo III realmente existe, encontrei exemplares de 30 réis em
    Papel Grosso remanescente dos Olho de Boi c/ pequenas diferenças. Ao contrário dos Inclinados 60 réis Tipo-II e III, onde as modificações foram efetuadas somente no numeral "6", no Inclinado 30 réis Tipo III elas se apresentam somente no numeral "0", derivando do mesmo Contra-cunho do Tipo I, onde;
    Traço externo tangencial ao "0" de baixo para cima segue em direção ao centro do selo.
    Contorno interno inferior, a sombra se mostra menor inclusive aparecendo um raio a mais do detalhe do guillochis.

    Procurem em suas coleções itens semelhantes, para que juntos possamos elucidar mais este mistério.

    Dedico o resultado de meus estudos como estímulo aos novos filatelistas, principalmente "às filatelistas" tão pouco representadas neste "hobby", mostrar a riqueza de nossos selos do Brasil Império e a importância da pesquisa assim como de um personagem ou fato histórico.

    (*)Brasil 1844-1846: "INCLINADOS" Selos do Império do Brasil 2ª Estampa – W. G. Taveira. (**)Biblioteca do Filatelista Vol. I, II e III - Club Filatélico do Brasil 1938/48 – José Kloke, F. da Nova Monteiro.

    ... E assim se encerra o presente artigo. Não se encerra no entanto, nem parará nunca o constante evoluir da Filatelia.


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