• "Agentes Postais Embarcados na Amazônia"
    por Rubem Porto Jr.

    Introdução

    Agente Embarcado era a denominação oficial dada ao funcionário dos Correios, que viajava como agente do correio à bordo de barcos a vapor que cruzavam os rios brasileiros.

    Agente Embarcado era também, como corriqueiramente eram conhecidos nas rodas do departamento de pessoal dos correios, o funcionárío com este cargo. Outras áreas do país, além do Amazonas, também tiveram serviço de agentes embarcados.

    A lista das marcas (carimbos) postais associados a este serviço na Amazônia conhecidas até 1944, são com inscrições dos seguintes tipos: “AGENTE — EMBARCADO — AMAZONAS. ESTAFETA – MANAUS”; “EMBARCADO — MANAUS - AMAZONAS, FLUVIAL — AMAZONAS”; e “FLUVIAL — MANAUS”, todos datados de 1938 e 1939. Posteriormente mais dois tipos foram descritos e serão apresentados a seguir.

    Os Carimbos
    Características gerais dos dois tipos de carimbos:
    a) Tipo 1 - Entre as duas circunferências, a legenda N. 7 — AG. EMBARCADO — AM — BRASIL. No círculo interno, lê-se a data (dia, mês e ano) numa só linha (figura 1). Diâmetro da circunferência externa de 29,5mm. Diâmetro da circunferência interna 18,5 mm. Desse mesmo tipo são registrados também com números 3,5,8 e 9.
    b) Tipo 2 - Legenda e circunferência em traços finos. No círculo interno, lê-se a data (dia, mês e ano) em três linhas. Diâmetro da circunferência externa de 25,5mm. Diâmetro da circunferência interna 13,5 mm (figura 2).

    No Amazonas os vapores (“chatas” movidas à roda trazeira), faziam baldeação, de passageiros e cargas, em vários portos ribeirinhos. Nos barcos com presença de Agentes Embarcados, em um dos camarotes lia-se a palavra “CORREIO”, significando a possibilidade de se remeter correspondência através da “agência à bordo”.


                       Figura 1 e Figura 2



    Informações complementares

    Antes de explicarmos como atuava o correio embarcado, alguns esclarecimentos para facilitar a compreensão do assunto.
    1) Os vapores que saíam de Belém no Pará, fazendo a linha dos rios Madeira, Purús e Solimões, sistematicamente paravam em Manaus no Amazonas. Portanto, a correspopndência ribeirinha no Amazonas poderia estar a cargo de um Agente Embarcado no Estado do Pará.
    2) Haviam barcos à vapor de companhias particulares e estatais, estes pertenciam ao SNAPP- Serviços de Navegação da Amazônia e de Administração do Porto do Pará. De modo geral, os vapores de companhias particulares, nas mesmas linhas utilizadas pelos barcos governamentais, faziam idênticas rota e escala, mas não transportavam correio.
    3) Os rios por onde circulavam os vapores eram os mais importantes do ponto de vista econômico e serviam para escoar a produção local, principalmente de borracha. Os rios utilizados eram aqueles em que a navegação de longo curso era possível, gerando assim uma certa frequência de embarcações, apesar da baixa densidade demográfica ribeirinha na região naquela época. No começo do século, os vapores seguiam preferencialmente a partir do porto de Belém chegando até o alto amazonas. Eram tão importantes para aregião, que chegavam, até mesmo, a transportar cargas provenientes de outros países como o Peru através do porto de Iquitos.
    4) A reforma do correio, datada de 11 de Novembro de 1909, estabelecia através do art. 354 que: “A bordo dos paquetes das mais importantes companhias de Navegação, subvencionadas ou não pela União, ou por um ou mais Estados, ou que efetuarem viajens regulares entre portos nacionais ou deste para o extrangeiro, haverá agências postais à cargo de empregados pertencentes à repartição principal do ponto inicial ou terminal das viajens”.
    5) Em 1904, a frota da Amazon Steam Navigation Company constava de 32 vapores. Vinte anos depois eram 36 vapores. Quando esta companhia foi transformada na SNAPP, quase 30 anos depois, não houve aumento no número de embarcações. A ASNV estabeleceu-se em 1872 a partir da junção de duas outras companhias de navegação: “Companhia deNavegação e Commercio do Amazonas” e da “ Compnahia Fluvial do Alto Amazonas”. A primeira surgida em 1852 atendendo a legislação de 6 de setembro de 1850.
    6) Nem todos os vapores governamentais que circulavam pela amazônia levavam “agentes embarcados”, pois havia a dependência de se ter pessoal para a realização do serviço. Vapores de companhias particulares, entretanto, jamais levavam tal agente.
    7) O pequeno número de agências postais na amazônia, cujas embarcações eram o único meio de transporte à época, trazia como consequência, dificuldades e ineficiência na prestação do serviço de correio para a população da região. Assim, tornou-se imperativo para a região o serviço de correio baseado em “agências móveis”, com seus agentes emabarcados, não sendo difícil de imaginar a importância deste serviço para a região.

    Agente Embarcado

    O Agente Embarcado conduzia todo o material necessário para o desempenho de sua função como representante dos serviços de correio à bordo das embarcações. Com ele seguiam selos, carimbos e demais accessórios indispensáveis a prestação do serviço. Esse funcionário postal quando em viajem, recebia e entregava correspondências nos locais de parada dos vapores.

    Entretanto, o vapor não fazia paradas em todos os portos ou localidades do trajeto, já que as atracações estavam sujeitas a necessidade de embarque ou desembarque de passageiros, de cargas, e de abastecimento de lenha. No entanto, ainda assim as cartas eram entregues aos destinatários. Comumente os vapores faziam várias paradas por dia, sendo que para abastecimento de lenha, isso ocorria, em geral, apenas semanalmente. Como os vapores, mesmo os mais velozes, faziam pouco mais de alguns quilômetros por hora, marcha essa ainda mais lenta durante as “subidas dos rios”, os embarques e desembarques em pontos onde não haviam paradas programadas era possível e realizados, ou com a velocidade do barco habitual ou com a mesma sendo reduzida. Isso facilitava a abordagem do vapor por por outras pequenas embarcações usadas para o translado de carga, pessoas e ... cartas!

    Portanto, nos casos de haver necessidade de entregas e recebimentos de correspondências entre o Agente Embarcado e a população ribeirinha, nenhum prejuizo havia, mesmo se os vapores não atracassem. De maneira geral, essa era uma prática comum. Assim acontecia em inúmeras localidades em que o vapor passava ao largo sem se deter para atracação. Como já dito, nem todos os vapores levavam o “Agente Embarcado”. Nas linhas, servidas por esses agentes, os vapores podiam ou não levá-los, ou por conveniêncía postal (fraco nível de serviços) ou por não haver funcionários suficientes para servirem como agentes de correio embarcados.

    Como podemos imaginar, devido as dificuldades, o serviço de correio à bordo, além de apresentar grandes deficiências, era também muito irregular. As Diretorias Regionais dos Correios e Telégrafos, tanto no Pará, como no Amazonas, dispunham de um corpo de Agentes Embarcados. Entrtanto, em 1945, a Diretoria Regional do Pará extinguiu as atividades desses agentes. Quando da extinção, existiam no Pará apenas três funcionários no exercício da função.

    O tema Agente Embracado, oferece um vasto campo de pesquisas e estudos. Este trabalho só apresenta uma rápida idéia do que foi a atividade de um Agente Embarcado. Aqui foi focalizado o serviço de correio à bordo de vapores que circularam na região amazônica. Mas deve ser realçado que esta região não foi a única no país, a dispor deste tipo de serviço, baseado na navegação fluvial.

    Existiram muitas companhias de vapores, neste mesmo período, organisadas pelo Brasil afora: Companhia Fluvial Maranhense (vapôres com rodas laterais), Navegação à vapor do Rio Parnaiba, Companhia de Viação do Rio São Francisco (Pernambuco), de Bôa Vista até Joazeiro na Bahia, Companhia de Navegação Pernambucana (no Estado de Alagoas, rios São Francisco de Penedo a Piranhas, Empreza Fluvfal de Navegação a Vapõr (Sergipe), Companhia de Viação do São Francisco (no Estado da Bahia, e com vaárias linhas), etc..

    Resta ser estudado se nas linhas de navegação fluvial acima citadas, e ainda em outras mais que existiram, se houve prestação de serviço especial de correio à bordo por agentes embarcados ou por estafetas de correio ambulante fluvial.


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