• Os Balões da Liberdade.
    por Peter Meyer

    Introdução

    A INFORMAÇÃO foi, é, e sempre será de vital importância para o SUCESSO. Quando digo "sucesso", entenda-se pessoal, amoroso, financeiro, e não apenas de ordem material. Limitar, proibir ou dificultar a comunicação entre as pessoas, seja esta escrita, falada ou digitalizada sempre foi uma poderosa arma de guerra. Confundir o adversário, criar obstáculos de comunicação é uma tarefa indispensável quando o conflito existe.

    Segundo TSUN TZU, no seu livro a ARTE DA GUERRA, conhecendo-se e conhecendo bem ao inimigo, a vitória FINAL será certa. Conhecendo apenas metade, você conquista algumas vitórias e amargará algumas derrotas e o final será completamente incerto. Para conseguir estabelecer uma comunicação em tempos de guerra, entretanto, o ser humano cria, inventa e consegue superar-se. A guerra, como tudo na vida da humanidade, apresenta dois lados: o bom e o ruim. A guerra mata, mutila e, por outro lado, cria, desenvolve, amadurece.

    A FILATELIA registra, através da documentação escrita, as tentativas, os sucessos e fracassos na comunicação humana. E em diversas ocasiões, a criatividade vai muito além da imaginação da maioria das pessoas não familiarizadas com a história e a própria filatelia. O ramo da filatelia que estuda, arquiva e pesquisa a comunicação humana através da palavra escrita chama-se História Postal.

    HISTÓRIA POSTAL apresenta termos específicos, na maioria das vezes desconhecidos pela maioria das pessoas. "BALLONS MONTÉS", "BOULES DE MOULINS", "PIGEONGRAMMES", "PONY EXPRESS", "PAPILLONS DE METZ", "TIN CAN MAIL", "ALASKA TEAM DOG" são exemplos de termos filatélicos associados ao que chamo de "CORREIOS DE EXCEÇÃO". São formas inventivas, criativas de transporte de mensagens escritas, geralmente associadas à dificuldades geográficas, de conflitos e guerras. Neste pequeno artigo, já que a filatelia é por demais extensa, iremos tratar do nascimento e evolução dos chamados "Ballons Montés".

    UM PAÍS ! UM IDIOMA?

    A Confederação Germânica era formada por 38 Estados cujo idioma alemão predominava e a mesma era presidida pela Áustria. Era do interesse austríaco esta divisão, pois Estados pequenos, agrários e sem indústrias facilitava o seu domínio. Havia um Estado, entretanto, possuindo a região da renânia industrializada, não se conformava com este atraso. Era a Prússia, que desejava uma unidade alemã para permitir participar da divisão das colônias no mundo, já quase completada pela Grã-Bretanha e França. A fracassada revolução de 1848, chamada de "esquina do mundo" impediu e retardou a unidade alemã e italiana pela via pacífica. A retirada da Áustria do "Zollverein" (unidade alfandegária germânica) permitiu uma expansão industrial da renânia e a aliança da alta burguesia alemã com os Junkers foi o início da sonhada unidade alemã. Em 1862, com o lema FERRO E SANGUE, sobe ao posto de Primeiro Ministro Otto von Bismarck, arquiteto desta nova nação. É da sua lavra a seguinte frase: "O Direito mais sagrado de uma Nação é existir e ser reconhecida como tal".

    O PLANO - TRÊS GUERRAS

    1) A GUERRA DOS DUCADOS DE 1864
    2) A GUERRA AUSTRO-PRUSSIANA DE 1866
    3) A GUERRA FRANCO-PRUSSIANA DE 1870


    A GUERRA DOS DUCADOS

    O Congresso de Viena e a Santa Aliança restauraram e legitimaram o absolutismo monárquico, ou Antigo Regime, cedendo a região de Schleswig-Holstein (ao norte da futura Alemanha) à Dinamarca e Lombardo-Veneto para a Áustria. Em 1863, a Dinamarca anexou o ducado de Schleswig-Holstein, pretexto que Bismarck precisava para iniciar a Guerra da Prússia com a Dinamarca. Para dar prosseguimento ao plano, era necessário ter como aliado a Áustria. Questões territoriais da conquista foram os elementos indispensáveis para uma rivalidade austro-prussiana. O segundo passo seria uma guerra contra a poderosa Áustria. Antes, porém, uma aliança com a Itália e a neutralização de Napoleão III, em 1865, foram ingredientes indispensáveis para esta segunda etapa. A Itália, partindo de Piemonte, principalmente, desejava a anexação de Lombardo-Veneto. Napoleão III não deu apoio aos italianos nesta questão, pois protegia o Papa Pio IX com suas tropas no futuro Vaticano. O Papa era contrário à formação de uma Itália unida.

    A GUERRA AUSTRO PRUSSIANA de 1866

    Chamada de "Guerra das 7 Semanas" a Prússia liquidou a Áustria na Batalha de SADOWA. Assim, a Itália recebe Veneza e renuncia ao Tirol, Trentino e Ístria. A sua capital é Florença, pois Roma continua ocupada. Dissolve-se a Confederação Germânica e nasce a Confederação Germânica do Norte, com a emissão de selos postais próprios. Faltava, agora, a fase mais complicada. Unir o sul alemão, Católico, ao norte Luterano. O sul da futura Alemanha ficava exatamente entre o norte alemão e a França. Uma guerra era eminente, faltava o motivo, o estopim.

    A GUERRA FRANCO-PRUSSIANA de 1870

    A candidatura do Príncipe Leopoldo de Hohenzollern, parente do Rei da Prússia, ao trono da Espanha e o veto de Napoleão III eclodiu este conflito. A Batalha de Sedan selou esta guerra e, com isso, Guilherme II foi coroado Imperador no salão dos espelhos de Versalhes, fundando o II REICH. Nascia a Alemanha, recebendo grande indenização da França e a Alsácia-Lorena. Paris ficou cercada por tropas prussianas. Foi nesta situação que o gênio e o amor ao balonismo, por parte dos franceses, criou os chamados "BALLONS MONTÉS".

    Torna-se necessário conhecer estes dados históricos que relacionam Napoleão I (Congresso de Viena de 1815), Unidade Italiana e Alemã, colonização do novo mundo com Primeira e Segunda Guerra Mundial. Um perfilar de fatos interligados quase sempre registrados na História Postal.

    OS BALÕES DA LIBERDADE - BALLONS MONTÉS

    Paris estava cercada. Para comunicar-se com parentes, amigos e etc., surgiu a idéia de utilizar balões, com um piloto e alguns passageiros, que partiam de Paris e levados pelo vento caiam fora do cerco prussiano (nem sempre dava certo). De lá, a correspondência seguia a pé, carroça, navio e etc., até o seu destino final. Estabeleceu-se um peso máximo, formato, tarifa postal e no dia 22 de setembro de 1870 seguiu viagem o "LE NEPTUNE". Ao todo foram 67 balões, cada um com nome diferente e cada qual com seu destino: cair nas mãos do inimigo (Lê General Chanzi), sofrer acidente (Lê Jacquard), cair em país distante (Le Parmentier na Noruega) e aqueles normais, como Le Duquesne que levava uma carta dirigida ao Rio de Janeiro/Brasil.

    A classificação dos "Ballons Montés"

    Existem dois tipos: os identificados, conhecidos pela inscrição "Par Ballon Monté" e os não identificados, que presume-se que tenham viajado nestes balões pelas datas de saída e chegada do carimbo e não apresentam a inscrição "Par Ballon Monté".

    Grau de Raridade
    Acidentes - Le Richard-Wallace
    Destinos estranhos e distantes - o ilustrado para o Brasil e peças enviadas para a Prússia, o inimigo
    Com carimbos de passagem - o La Ville de Paris
    Balão com pouca correspondência - o Le Non-Dénommé 1 com apenas 4 kg de correspondência
    E o último balão - Lê General Cambronne de 21 de janeiro de 1871.

    A LISTA DOS 67 BALÕES

    O LE DUQUESNE - 55º Balão do cerco Este balão decolou no dia 9 de janeiro de 1871, as três horas da madrugada, na chamada Gare d'Orleans em Paris e, depois de voar 170 Km em 12 horas, caiu em Ludes, no Marne, a leste de Paris. Seu piloto fora Charles Richard e seus passageiros Aymand, Chemin e Lallemagne. O Marne estava ocupado por tropas prussianas e os sacos de correspondência seguiram em charretes à mansão Pommery e depois para Reims. Uma delas seguiu depois por um vapor francês até o Rio de Janeiro e lá recebeu no verso um carimbo azul, tipo francês, do Rio de Janeiro. O balão Le Duquesne era munido de hélices, sendo um ensaio de balão dirigível.

    AS RESPOSTAS - AS BOLAS PERDIDAS E APRISIONADAS

    A idéia de enviar balões com cartas resolveu uma parte do problema de comunicação entre Paris e o mundo exterior. Quem pergunta deseja uma resposta. Como foi então que estas cartas foram respondidas? A criatividade e o desejo de estabelecer uma linha de comunicação inversa, do exterior para a cidade Paris, gerou os chamados "BOULES DE MOULINS".

    AS 13 CARTAS

    No dia 6 de agosto de 1968, durante uma dragagem do Rio Sena em Saint-Wandrille, encontrou-se uma bola de zinco, um "Boule de Moulin" ainda com sua correspondência intacta. Eram 539 cartas. O respeito ao cidadão fez com que os Correios de Paris anunciassem a descoberta e, na procura de descendentes dos destinatários, 13 pessoas reclamaram e receberam, com um certo atraso, a correspondência. As demais estão ao lado da bola de zinco original no Museu Postal de Paris (Musée de la Poste). As 13 peças estão no mercado filatélico, com um carimbo na cor vermelha indicando os dados desta descoberta feita 98 anos após o conflito Franco-Prussiano.

    CONSIDERAÇÕES FINAIS

    Colecionar é divertir-se, aprender e quando bem feito, com uma boa orientação, passa a ser também um bom investimento. Não adianta imaginar que comprando figurinhas e papel pintado, estaremos investindo. Bijuteria, sem o toque de Midas, não vira jóia nunca, nem daqui a centenas de anos. O mesmo acontece com as peças filatélicas.

    BIBLIOGRAFIA
    Les Ballons Montés de Gerard Lhéritier
    História Moderna e Contemporânea de Leonel Itaussu A Mello e Luís César Amad Costa

    Eng. Peter Meyer - Editor dos Catálogos de Selos do Brasil é sócio do Clube Filatélico do Brasil, nosso colaborador. Comerciante Filatélico, atualmente dirigindo a RHM Filatelistas (estabelecida no dia 20 de agosto de 1951). Autor do Catálogo Enciclopédico de Selos e História Postal do Brasil e do Catálogo de Inteiros Postais do Brasil. É Membro do Club D'Elite da Filatelia de Mônaco

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