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PESQUISANDO VALORES DURANTE O PERÍODO DE CIRCULAÇÃO DA
EMISSÃO BISNETA (1954 - 1966)
por Rubem Porto Jr.
Introdução
O estudo das franquias, dos selos, da história postal e dos portes referentes ao período que envolve os anos 50 e 60 do século passado (século XX), além de sofisticado e instigante, pode nos trazer algumas informações a respeito de como era, e como andava, o nosso Brasil àquela época. Realizo essa investigação tendo por base a emissão Vultos Célebres (1954), mais conhecida como padrão Bisneta.
Trata-se de uma emissão de selos regulares (ordinários) com riqueza de aspectos filatélicos que merecem ser estudados e que, até aqui, foram realizados de maneira expressiva em alguns casos, mas que ganharam pouca divulgação, talvez pelo fato de que os melhores estudos estão escritos em alemão.Com referência a emissão pode-se dizer que são vários os tipos de papéis, são muitas as variações de cores, observa-se uma grande quantidade de defeitos de chapa e de anomalias técnicas, dentre tantos outros aspectos relacionados a esta emissão.
Mas não é sobre isso que vamos falar neste pequeno artigo. Examinando alguns documentos postais de minha propriedade e circulados no período, três deles me chamaram a atenção. Enviados ao mesmo destinatário, apesar de endereços diferentes, esses documentos foram, todos eles, enviados pela tradicional e famosa Casa Filatélica Santos Leitão, existente à época, no Rio de Janeiro e localizada no centro da cidade à Av. Graça Aranha, no então, famoso Edifício dos Comerciários.
A Casa Filatélica Santos Leitão enviava a seus correspondentes boletins de preços referentes a seus artigos, bem como catálogos de selos por ela editados. Tenho em meus guardados três destas correspondências enviadas com intervalo total de quase sete anos. Delas podemos tirar, por comparação, algumas informações interessantes.
A comparação, aqui tentada foi facilitada pelo fato de que os três documentos tem exatamente o mesmo padrão e dimensões, e servia para a mesma função: divulgar os preços dos materiais filatélicos e numismáticos, postos à venda pela casa comercial, bem como divulgar a edição do Catálogo de Preços de Selos Brasileiros editado pela própria casa filatélica.
O primeiro documento (figura 1) é endereçado à localidade de Monte Aprazível, em São Paulo, franqueado em Cr$ 0,40, com porte pago com dois selos: Cr$ 0,10 Tamandaré na cor verde e Cr$ 0,30 Oswaldo Cruz na cor vinho, ambos regulares do padrão Bisneta, cancelados por carimbo circular com datador central de 20 de fevereiro de 1959. No interior do folder a Casa Santos Leitão oferece seu Catálogo de preços correntes de selos brasileiros do ano de 1959, pelo valor de Cr$ 160,00. Nas partes seguintes do folder, apresenta exemplo de folha do catálogo, com valores de selos do Império para as emissões "Olhos de Boi" e "Inclinados" e valores para materiais filatélicos e numismáticos variados.

Fig.1 - Frente de documento enviado pela Casa Filatélica Santos Leitão (Rio de Janeiro) para Monte Aprazível (SP). 20/02/1959. Porte de Cr$0,30.
O segundo documento (figura 2) é endereçado a localidade de São José do Rio Preto, em São Paulo, franqueado em Cr$ 10,00 com porte pago com um selo isolado: Cr$ 10,00 Rui Barbosa na cor verde com fundo quadriculado, emissão Bisneta, cancelado por carimbo circular com datador central de 14 de dezembro de 1964. No interior do folder, exatamente no mesmo padrão daquele de 1959. A Casa Santos Leitão oferece seu Catálogo de preços correntes de selos brasileiros do ano de 1965, pelo valor de Cr$ 1.000,00 e nas partes seguintes do folder apresenta exemplo de folha do catálogo com valores de selos do Império para as emissões "Olhos de Boi" e "Inclinados" e valores para materiais filatélicos e numismáticos variados.

Fig.2 Frente de documento enviado pela Casa Filatélica Santos Leitão (Rio de Janeiro)para São José do Rio Preto (SP). 14/12/1964. Porte de Cr$ 10,00.
O terceiro documento é endereçado à localidade de São José do Rio Preto, em São Paulo, franqueado em Cr$ 20,00 com porte pago com um selo isolado: Cr$ 20,00 José Bonifácio na cor vermelha com fundo quadriculado, emissão Bisneta, cancelado por carimbo circular com datador central ilegível, mas com datador circular de chegada de 5 de dezembro de 1966. No interior do folder, exatamente o mesmo padrão apresentado pelos "folders" anteriores. A Casa Santos Leitão oferece então, seu Catálogo de preços correntes de selos brasileiros do ano de 1967, pelo valor de Cr$ 3.500,00 e nas partes seguintes do folder apresenta exemplo de folha do catálogo com valores de selos do Império para as emissões "Olhos de Boi" e "Inclinados" e valores para materiais filatélicos e numismáticos variados.
O que podemos tirar destas informações? A primeira coisa que podemos apreender é que o custo do porte para o envio deste tipo de material, no período de cerca de 5 anos (1959 até 1964) passou de Cr$ 0,30 para Cr$ 10,00! Um aumento de cerca de 33 vezes (3.200%)! Esse mesmo porte no período de 1964 até 1966 passou de Cr$ 10,00 para Cr$ 20,00! Um aumento de 100%. No período, então, de 1959 até 1966 o aumento foi de 66 vezes (6.500%)!
No período de 1959 até 1964, o valor do catálogo ofertado pelo comerciante subiu bem menos de preço: passou de Cr$ 160,00 para Cr$ 1.000,00 (525%). Um aumento de pouco mais de 6 vezes. Nos dois anos seguintes atinge Cr$ 3.500,00. Um aumento de 3,5 vezes. Para o período completo examinado temos um aumento de quase 22 vezes (2100%)!
E quanto ao valor dos selos? Quando comparamos as três tabelas (Tabelas 1, 2 e 3) mostradas a seguir, e que correspondem aos preços mostrados no "folder", podemos ver que, se considerarmos a emissão Olhos de Boi, para selos novos, um 30 réis valorizou-se em uma proporção de 15 vezes (1.400%), o 60 réis mais de 13 vezes (1.200%) e o 90 réis 10 vezes (900%).

Tabelas 1, 2 e 3.
Para o período correspondente a 1959 até 1964. Ao examinarmos os valores correspondentes ao período entre 1965 e 1967 vemos que um 30 réis valorizou-se em uma proporção de 66%, o 60 réis mais de 225% e o 90 réis 230%. Avaliando o período total entre 1959 e 1967 temos que um selo Olho de Boi no valor de 30 réis valorizou-se em uma proporção de 28 vezes (2.700%), o 60 réis mais de 30 vezes (3.000%) e o 90 réis 23 vezes (2300%).
Conclusões
Esse rápido exercício permite notarmos algumas práticas comuns por parte dos governantes brasileiros desde então, como, por exemplo, aumentar o valor das tarifas públicas em índices muito maiores do que a inflação do período. Ou seja, a tarifa não foi corrigida, e sim aumentada, em termos reais quase 4 vezes num prazo de sete anos! Permite também que observemos uma valorização dos selos "Olhos de boi" em relação à inflação, bem como observar que o valor do catálogo vendido pela Casa Filatélica aumentou em valores reais (descontada a inflação do período). Mesmo considerando-se a conturbação político - econômica do período podemos concluir que o bom material filatélico ultrapassou esses momentos sem perdas econômicas.
A questão que pode ser colocada para o leitor é a seguinte: será isso verdade para tempos mais recentes, e similares do ponto de vista sócio-econômico, como as décadas de 80 e 90 passadas ou mesmo para os dias atuais?
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