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AS COMPANHIAS FRANCESAS DE NAVEGAÇÃO A VAPOR EM OPERAÇÃO NA LINHA DO bRASIL ANTES DE 1860.
por Philippe Jean Damian (IN MEMORIAN) e Klerman Wanderley Lopes,
Introdução
Em gradual substituição aos veleiros, desde antes de 1840 os primeiros paquetes transatlânticos a vapor começaram a operar e, naquele ano, os britânicos colocaram em operação um Serviço Postal Inglaterra-Estados Unidos da América. Sòmente mais tarde, regulamentado pela lei de 16 de julho de 1840, a França decidiu estabelecer serviço de linhas de navios a vapor em direção à America, uma das quais servindo ao Brasil. Por esse instrumento foram realizadas duas viagens experimentais em 1842 e em 1843, efetuadas pela fragata a vapor Gomer. Em consequência, em março de 1844 foi assinada uma convenção com o governo do Brasil prevendo a instalação de uma linha regular de paquetes entre os dois paises.
Há muito tempo os comerciantes franceses aqui estabelecidos pleiteavam e aguardavam a inauguração dessa linha, tendo como referência os portos de Le Havre e o do Rio de Janeiro. Nas negociações com o governo do Brasil a França infelizmente não respeitou os compromissos assumidos e em consequência a planejada linha de paquetes não se concretizou. Por sua parte, a Inglaterra negociou desde 1850 a instalação de uma linha de paquetes a vapor entre o Rio de Janeiro e Southampton, em substituição àquela de navios à vela já em funcionamento. Essa linha, operada pela Royal Mail Steamship Company, iniciou suas atividades em janeiro de 1851. Por sua vez, a França continuava a utilizar os serviços irregulares dos navios de comércio, que despachavam a correspondência recebida nas Agências de Correio dos diversos portos de atracação, como os de Le Havre, Nantes, Bordeaux, etc,. A partir de 1839 as correspondências passaram a receber um carimbo datador circular de entrada, do tipo “Outre-mer” (ultramar) onde constava o nome do porto de chegada.
Em função da crescente importância das relações comerciais Brasil-França, a partir de 1853 houve iniciativas privadas de implantação de uma ligação marítima regular entre os dois Países, nem de longe alcançando o sucesso das linhas inglesas, que se desenvolveram extraordináriamente entre 1851 e 1860. Pretendemos com esta comunicação descrever resumidamente as três companhias que entre 1853 e 1857, tentaram operar na linha do Brasil.
1 - Compagnie de Navegation Mixte - L. Arnaud, Touache Fréres et Cie. - Marseille
Realizou apenas duas viagens nos anos de 1853 e 1854 utilizando em ambas o vapor a hélice “L’Avenir”, de 1400 toneladas e 250 cavalos de fôrça (HP). Em sua primeira viagem, partiu de Marselha a 25 de novembro de 1854, chegando à Bahia (Salvador) em 15 de janeiro e ao Rio de Janeiro em 9 de fevereiro. Retornou do Rio de Janeiro em 15 de março daquele ano, passou pela Bahia em 25 de março e por Pernambuco (Recife) em 28 de março. Em seguida, fez escala em Gorée (Senegal) em 20 de abril, em Tenerife em 30 de abril e em Lisboa em 5 de maio, retornando a Marselha em 16 de maio de 1854. Foi resgistrado em seu manifesto de carga o transporte de mala de correio. Em sua segunda viagem, partiu de Marselha em 28 de junho de 1854, chegando ao Rio de Janeiro em 6 de agosto. O retorno ocorreu em 16 de agosto com escalas na Bahia em 22 daquele mês e em Tenerife em 12 de setembro, aportando finalmente em Marselha em 27 de setembro de 1854. Ainda que tenha tido mais sucesso nessa segunda oportunidade, foi considerado que, dada a longa duração das viagens (76 e 39 dias na ida e 39 e 42 dias no retorno), a empreitada não era competitiva. Também em 1854 os navios de bandeira francesa foram requisitados pelo governo para o transporte de tropas em serviço na guerra da Criméia. Esta companhia, sob o mesmo nome, voltaria a operar em agosto de 1856 com novas embarcações.
2 - Compagnie Franco-Américaine des Fréres Gauthier & Cie.
Após o conflito da Criméia, esta companhia fundada em Lyon, adquiriu 6 navios de 2200 toneladas e 400 HP, estabelecendo-se na rota Le Havre - Rio de Janeiro em 1856. Receberam a denominação de Barcelonne, Alma, Vigo, Lyonnais, Cadix e Franc-Comtois. No quadro acima apresentado, a tabela de marcha das embarcações. As cartas transportadas pela companhia recebiam na chegada ao Havre o carimbo datador “Outre mer / Le Havre” (Salles nº 134, Tomo I). Essas cartas podem apresentar também um carimbo administrativo aplicado na partida por uma de suas agências ou uma vinheta com os dizeres G F Et C. O nome do navio transportador era geralmente manuscrito na frente da carta.
3 - Compagnie de Navigation Mixte - L. Arnaud, Touache Fréres et Cie. –Marseille
Em abril de 1856 essa companhia comunicou a reorganização de suas linhas transatlânticas com a utilização de cinco navios partindo de Marselha: France, Brésil, Europe, Ville de Lyon et Amérique. Com o mesmo itinerário utilizado pelo L’Avenir em 1853, o navio France reiniciou o serviço em direção ao Brasil em 25 de agosto de 1856, sendo destruído por um incêndio à sua chegada à Bahia em 26 de setembro de 1856. Na segunda viagem da Companhia, o navio Brésil partiu de Marselha em 26 de setembro e após 45 dias de viagem chegou ao Rio de Janeiro em 10 de novembro de 1856. Dali saindo em 20 de novembro, chegou a Marselha em 11 de janeiro de 1857, em 52 dias de viagem. Em 7 de dezembro de 1856 o Ville de Lyon iniciou a 3ª viagem, chegando ao Rio de Janeiro após 37 dias, em 13 de Janeiro de 1857. Retornou em 25 de Janeiro, chegando a Marselha em 7 de março. Na sua 4ª viagem a compania utilizou o navio Byzantin, afretado para a linha do Brasil. Partiu de Marselha em 7 de janeiro e chegou ao Rio no início de fevereiro. Retornou em 16 de fevereiro, fazendo escala na Bahia no dia 20 e chegando a Marselha em 6 de abril de 1857. Na última viagem da linha o navio Brésil partiu de Marselha em 7 de março com destino ao Rio, de onde retornou em 9 de maio, aportando em Marselha em 8 de Julho de 1857.
Em sua obra “La Poste maritime Française” T III à pg. 132, Raymond Salles faz menção à “Compagnie de Navigation Mixte” observando que “não se tem conhecimento de cartas enviadas a Marselha por seus navios, e no caso de as mesmas existirem, deveriam receber à chegada o carimbo datador circular Outre-mer Marseille” (fig 158, T I pg. 32). No leilão realizado por David Feldman entre 1 e 5 de novembro de 1854, encontramos o lote 11.339 (não fotografado), descrito da seguinte maneira: “Compagnie de Navigation Mixte Touache et Cie., 1857. Carta do Rio de Janeiro de 10.02.1857 endereçada a Zurich via Marselha, transportada pelo paquete Byzantin em sua única viagem à América do Sul. Marca manuscrita de porte “130”. Chegada a Marselha em 6 de abril de 1854 recebendo o carimbo datador vermelho Outre-mer Marseille.
No verso, carimbos de trânsito Marseille-Lyon de 06.04, Lyon-Paris de 07.04, Paris-Strasbourg de 07.04 e de chegada em Zurich em 08.04.1857”. E a nota: “Única carta conhecida do correio transportado pelo Byzantin nessa viagem”.
Tivemos a oportunidade de adquirir e examinar uma segunda carta transportada na mesma viagem e encaminhada a Bordeaux, onde se pode observar: Na frente, carimbo vermelho Outre-mer Marseille de 6 de abril de 1857 e taxa manuscrita de 12 décimes relativa à franquia simples de carta transportada por navio francês. No verso os carimbos ferroviários de trânsito e chegada: “Marseille à Lyon” de 6 de abril, “Lyon à Paris” de 7 de abril, “Paris (60)” de 8 de abril, “Paris à Bordeaux” de 8 de abril e, finalmente, “Bordeaux” de 8 de abril de 1857. Ver Figura mostrada a seguir.
Bibliografia:
1 – Henri Tristant – “Les premiers paquebots à vapeur transatlantiques, 1840-1868” suplemento nº 238 da revista “Feuilles Marcophiles” – 1994.
2 – Raymond Salles – “La poste Maritime Française”
3 – Bernard Berkinshaw-Smith – “The carriage of mail between France and the Antilles and Latin America to 1880. London Philatelist nº 102 – May 1993.
4 – Armando Mario O. Vieira – “Paquetes a vapor para o Brasil”. Nucleo filatélico do Ateneu Comercial do Porto – 1991.
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