• "Cartas" do Período Imperial

    por Renato do Amaral Machado

    Sei que estou me arriscando a fazer-me fastidioso, mas insisto no tema, inobsante o tédio que possa ele causar aos eventuais leitores. Não persevero na denúncia capaz de merecer o estigma de monocórdia por outra razão que não a defesa indispensável d a filatelia. O Trânsito impune de cartas falsas aumenta de forma inestancável e constrita-me ver não terem elas a esperada rejeição por parte dos colecionadores, cada vez mais tolerantes com essas peças fraudulentas addquiridas, sem exame, numa credulidade surpreendente e, filatelicamente, suicida, o que além do mais revelaum nível muito baixo de conhecimento dos filatelistas que as incluem em seus conjuntos sem maiores perquirições.

    Em data recente recebi da firma NutMeg, há pouco aparecida no campo das organizadoras de leilões, um belo catálogo com diversos envelopes ostentando curiosas e muito suspeitas cartas porteadas com atarentes combinações de selos de emissões diversas. A quase totalidade delas mesclava “olhos de cabra” e picotados da série de 1866. Curiosamente, daquelas que na descrição é informada a data do trânsito, teriam sido portadas já na década de 70 e quase todas espedidas do Rio de Janeiro.

    Correspondência originária da capital do Império exibindo selos emitidos 16 anos antes e, à época, já substituídos pela primeira série impressa no ABN, mais de um lustro após a entrada em circulação desta desta série, aos meus olhos, parecerá sempre, estranha. Pedi a firma que submetesse essas cartas à análise de seu perito (que dizem ser bem conceituado) e resposta não obtive. Isso agrava minha dúvida e aduz reticências a minha curiosidade. Não posso concluir pela falsidade de uma carta que não tive em mãos para estudá-la, só a partir de uma suspeição gratuita e incomprovada. Mas que o emprego, sobretudo no Rio de Janeiro, de selos emitidos tantos anos antes (já substituído por outros) e em combinação com seus sucessores é, no mínimo, fato estranho a merecer cuidadosa inspeção.

    Fôra a estação postal expedidora dessas cartas um pequeno vilarejo com reduzido movimento, seria crível a permanência dessa fórmulas em estoque, durante anos, mas em se tratando da capital do Império custa a crer pudessem esses selos permanecerem à disposição dos usuários por 10 a 15 e mais anos, fato que no mínimo, revelaria grosseiro erro de previsão das administrações do Correio ao remeter a essas agências quantitativos de valores tão superiores às necessidades de seu consumo. Seria desmando imperdoável, representando desperdício censurável, encaminhar às agências quantidades assim excessivas à demanda presumível de público. Isso importaria, na mais lisonjeira das hipótese, em indesculpável dissipação que o é, sem dúvida, em qualquer ramo de atividade, a formação e/ou manutenção em armazém de quantidades tão maiores do que as necessidades do consumo. É noção elementar da administração de material não adquirí-lo, ou conservá-lo em quantidades muito excedentes à demanda comprovável, ou presivível.

    Meu ceticismo se agrava quando me defronto com cartas ou fragmentos nos quais teriam sido empregados “olhos de cabra”, oficiosamente picotados. Para os quais recomendo mais do que simples cautela: são essas peças merecedoras de desconfiança, a priori, sobretudo quando da composição do porteamento faça parte o 10 réis preto.

    Portanto, é muito dificil crer que o 10 réis vertical preto, ao que sabemos impresso em 1850 e nos poucos anos, imediatamente posteriores, houvesse continuado a ser vendido em postos do Rio de Janeiro depois de 1866. É notório que quando os funcionários postais, em 1866, tomaram conhecimento dos selos picotdos, como eram os da Série “Barba Preta” e se capacitaram da praticidade do sistema, teriam improvisado a picotagem dos “olhos de cabra” ainda à venda, visando facilitar seu trabalho. Todos os verticais (pretos ou coloridos) foram objeto deste tratamento, menos o 10 réis preto, o que provocou, como inevitável, seria, indagação perplexa dos colecionadores: por que não teria ele, a exemplo das demais denominações, também sido objeto desse tratamento?

    Embora sem que se o possa provar, é voz corrente na filatelia que isso se deveu a não mais existirem a venda nos “guichés”do correio selos dessa taxa. Mesmo sem provas, é, quase pacífico, que o 10 réis preto não foi picotado por não haver mais tais selos no correio do Rio de Janeiro, onde as picotagens teriam sido feitas, segundo é aceito pelos filatelistas, há anos, sem discrepância.

    Quando os postalistas, estimulados pela facilidade de destacar selos picotados, houveram a idéia de submeter os “olhos de cabra” e “coloridos” remanescentes ao tratamento, segundo parece certo, já não existiriam à venda mais selos de 10 réis na cor preta. Só os azuis ainda sobejavam. O que não impediu falsificadores desinformados de picotar, por iniciativa própria, alguns exemplares desta taxa.

    É de se ter certo que o 10 réis já se havia esgotado em 1866 quando aqui chegaram as primeiras taxas impressas na América do Norte, com a inovação de vir separados por linhas de furos que inspiraram a picotagem oficiosa dos “olhos de cabra”restantes na repartição. Será que dos demais valores as existências seriam tão maiores que os mantiveram à disposição do público por quase 10 anos mais? Julgo improvável que isso tenha ocorrido. Até porque se tantos fossem os “olhos de cabra” ainda no Correio, não seriam tão raraos como são os picotados, individualmente, perfurados à época e muito provavelmente (quase certamente) as picotagens teriam sido feitas com mais esmero, em estabelecimento gráfico dotado de boas máquinass picotadoras e não em engenhos improvisados que mais parecem ter sido máquinas de costurar. Se maior tivessem sido os estoques picotados por emulação dos funcionários, seria de esperar um trabalho bastante mais elaborado.

    As conclusões inelutáveis a serem daí extraídas são as seguintes: 1) eram bem pequenas as quantidades ainda à venda, quando foi resolvido picotá-las para facilitar a separação; 2) o trabalho foi grosseiramente executado por mãos inexpertas, com emprego de instrumentos improvisados; 3) é quase certo (senão certo) não ter o selo de 10 réis preto sofrido esse procedimento, pois já não mais estaria à disposição do público; 4) as quantidades de selos picotados oficiosamente foram bem pequenas, o que o reduzidísimo número de exemplares, comprovadamente, circulados à época comprova e desafia testação; 5) os selos, induvidosamente, picotados pelos servidores postais em 1866 e, ao que tudo indica, somente nesse ano, em sua quase totalidade, foram usados, o que faz raíssimo qualquer exemplar novo, comprovadamente (?), picotado pelos funcionários postais; 6) consequentemente é espúria e fantasiosa a grande maioria (se não a totalidade, direi, eu) dos “olhos de cabra” e “coloridos” novos picotados em 1866; 7) é, praticamente, impossível atestar a época e identificar os responsáveis pela perfuração furtiva desses selos e dificílimo apurar-se a origem dos usados e, mais ainda, a dos não obliterados!

    Em princípio, pois, qualquer peça picotada dos olhos de cabra, usada ou nova (esta mais ainda) é indiciariamente falsa. Portanto, só após meticuloso exame feito por perito idôneo que ateste a sua autenticidade, deverá o colecionador adquirí-las, a menos que deseje correr o risco do dissabor de haver investido seu dinheiro na compra de uma contrafração. Se aisso adicionarmos a eventual recusa do vendedor procurar obter laudo pericial atestante da autenticidade, o fato confere alicerces sólidos à desconfiança.

    É curial que o proprietário de uma peça filatélica que a deseja vender, procure assegurar-se de sua seriedade e obter a certificação dela, valorizando-a. Se indagado sobre a autenticidade dela, tergiversa ou silencia, enseja a incerteza comprometedora.



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